Walter Barelli - economista e professor

Minha História

Barelli

Identificação

Meu nome é Walter Barelli, nasci em São Paulo, no dia 25 de julho de 1938.

Infância

Assim que eu nasci, fui para o bairro de São Miguel onde meu pai trabalhava na Nitroquímica. Com quatro anos, mudei para o Belém. Rua Arinaia, pois meu pai sofreu um acidente na Nitro, pediu demissão e foi trabalhar na fábrica de papel e papelão do Matarazzo. Aí mudei para uma vila, que alguns chamavam de Vila Bois, outros de Vila Matarazzo. Que era uma vila operária, na Avenida Celso Garcia. Lá, minha mãe morou até mais ou menos 1958. Depois mudei várias vezes pelo Belém.

Meu pai morreu quando eu tinha nove anos. Então eu não tenho muita memória da rotina geral. Mas, quando meu pai estava vivo, minha mãe não trabalhava fora, tomava conta da casa. A gente levantava, tomava café e ia para a escola. À tarde, depois do almoço tinha lição de casa e as brincadeiras. A vila que dava toda essa condição para a gente. A casa tinha um quintal onde a gente plantava algumas coisas e tinha umas galinhas. Isso aí é uma coisa de antigamente em São Paulo.

Meu pai ficou quatro anos doente e morreu em 47. Ele tinha uma aposentadoria, um auxílio de saúde ou alguma coisa assim, mas que era muito pequena. Ele precisava comer uma comida especial, precisava de farinha, mas não tinha, por que a Guerra tinha acabado há pouco tempo e havia racionamento. Então a solução era comprar macarrão para moer e fazer farinha, para preparar a comida do meu pai. Lembro-me de ir às quatro horas da madrugada com a minha mãe nas padarias para ficar na fila. Aí havia as invasões de padaria, por causa do racionamento, e era até perigoso. Quando ocorria isso minha mãe se afastava e a gente ia para outro lugar. Mas, foi assim que eu tive um pouquinho da experiência da guerra mundial. Conheci, à distancia, como a gente sofria as restrições desse tempo de guerra.

Minha mãe fazia muito tricô para vender. As blusas de tricô, sustentaram a família. Tem um negócio que encontrei nos papéis do meu pai que eu acho importante. Os trabalhadores da fabrica de papel e papelão do Matarazzo, que era ali ao lado da vila fizeram uma lista onde estava escrito: "Para você passar o Natal melhor." Para mim, isso mostra a solidariedade que o pessoal tinha. Meu pai tinha liderança. Todo mundo falava muito bem dele, mas não deu para conviver para saber todas as coisas.

Meu pai sofria do coração. Ele dizia: "Se me levarem para os Estados Unidos eles me curam." Ele queria fazer uma operação, mas no Brasil você ainda não tinha tido o Zerbini [Euryclides de Jesus Zerbini], e "companhia bela", o pessoal que faz a cirurgia toráxica. Ele tinha muita falta de ar, não podia fazer esforço. Meu pai era habilidoso, passou a consertar relógios do pessoal da vizinhança. E aí devia ganhar um dinheirinho pequeno, mas era o "bico" que ele fazia. Quando ele morreu minha mãe voltou a trabalhar na fábrica. Mudou o regime da família. Porque ela trabalhava oito horas em dois períodos, acho que era das sete às onze, e depois da uma às cinco horas. Então, quando ela saía, eu estava dormindo. Ia para a escola, voltava da escola tinha de fazer a comida. Depois tinha que lavar louça, lavar o quintal, a casa inteirinha. Quando minha mãe passou a trabalhar por turno, o turno da manhã era das cinco a uma da tarde e o da tarde das duas às dez horas da noite. Aí, eu passei a almoçar na casa da vizinha da frente, era uma espécie de pensão que a minha mãe pagava, e depois na casa de uma tia que morava no bairro, mas era mais longe. E minha mãe também pagava uma pensão, um dinheirinho lá para essa minha tia.

Mas a vila era um bom lugar, porque eu tinha muitos amigos da mesma idade. Todo mundo trabalhava, os pais trabalhavam, mas algumas mães não trabalhavam fora. Então era uma comunidade. Por ser filho único, eu tinha muitos brinquedos que os outros não tinham. Então o pessoal vinha brincar na minha casa. O problema de limpar a casa, essas coisas, era um negócio meio imposto, mas em parte eu aceitava. Porque alguém tinha que fazer, minha mãe fazia a faxina mais grossa, mas limpar, varrer, essas coisas, eu fazia.


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