Walter Barelli - economista e professor

Opinião Barelli - De estilingue à vidraça

26/02/2009, às 17h00

De estilingue à vidraça

Primeiro desafio

- Estou trazendo um convite do Presidente para você ser Ministro do Trabalho.

O emissário era o Ministro das Relações Exteriores, Fernando Henrique. Face à minha relutância, disse que eu teria o fim de semana para pensar. Inicialmente, pensei em recusar o convite. Meus planos eram outros e envolvia minha condição de professor da Unicamp, onde estava começando um projeto que me motivava muito. Entretanto, o país estava em um momento especial: Collor sofrera o impeachment. Itamar Franco, o Vice, por ética, negara-se a discutir o novo governo, enquanto Collor estivesse no poder. Agora tinha de tomar decisões urgentes, entre as quais compor seu Ministério. Do meu lado, como cidadão, tinha participado das manifestações públicas pelo impeachment. Tinha, portanto, alguma responsabilidade com o que tinha ocorrido. Tinha de ser conseqüente. Pensei interiormente: “Se esse governo não der certo, não poderei sequer criticá-lo, se recusar o convite de integrá-lo”. Aceitei o desafio.

Segundo desafio

Nunca tinha exercido um cargo público. Minha experiência era só de dirigir, nos tempos difíceis do governo militar, o DIEESE – DEPARTAMENTO INTERSINDICAL DE ESTATÍSTICA E ESTUDOS SOCIOECONÔMICOS. Alí participei de grandes momentos da vida sindical e econômica do País, discutindo com grandes empresários e com ministros e assessorando os líderes sindicais a tomarem decisões que mudaram nossa história, restabelecendo o regime democrático, com uma nova Constituição.

O que fazer – valer-me dos amigos com experiência. Em São Paulo, tinha a equipe da Fundação Seade. Em Brasília, um amigo do IPEA providenciou uma reunião, com experiente servidor público, que já havia sido Vice-Ministro da Saúde. Estudamos o organograma do Ministério. Aprendi rudimentos de administração pública: os cargos de confiança, as diferenças de gratificações, a hierarquia funcional.

Dois dias depois do convite formal, estava empossado como Ministro do Trabalho. Ainda dos tempos de estudante, recordava-me de uma experiência de um dos nossos líderes – Betinho, o irmão do Henfil –mostrando que, ao assumir o governo, deveríamos aproveitar os próprios funcionários existentes, pois eles conheciam a máquina e, bem dirigidos, comporiam um bom governo. Fiz isso, tanto assim que somente o chefe de gabinete, três secretários nacionais e dois assessores foram recrutados em São Paulo. Ajudado pelo calendário: a posse foi no dia 8 de outubro, dia 10 era domingo e dia 12 feriado nacional, convoquei a equipe inicial e representantes dos diversos órgãos do ministério para dois dias de planejamento. No dia 13, já tínhamos o planejamento inicial da ação no ministério, a confiança dos principais quadros e uma equipe que se conhecera e se integrara nesses dois dias de imersão. A seguir, foram 18 meses de uma gestão propositiva e participativa.

Terceiro desafio

Qual seria a política do novo governo na área do trabalho? Minhas atividades anteriores como assessor sindical sempre tinham sido de desmascarar políticas de governo que impunham perdas para os trabalhadores. Como Ministro, deveria mudar de opinião? Até então tinha sido estilingue. Agora seria vidraça?

Não vou ser cabotino e defender minha gestão, mas nossa equipe não fugiu dos grandes problemas. Tudo o que criticávamos antes se transformou em oportunidade para a ação do ministério. Como era patente minha origem sindical, fortalecemos os diversos conselhos, implantando nos diversos níveis, a representação tripartite, ou seja, governo, empresas e trabalhadores. Por acreditar no debate democrático, essa foi a maneira de não abdicar de teses anteriores e poder confrontá-las com representantes do mundo do trabalho.

A experiência relatada tem aspectos “sui generis”, por isso foi apresentada em três partes. Primeiramente, aceitar um cargo executivo em época de crise. Depois ter clareza de que precisava juntar aos meus conhecimentos anteriores do setor privado às peculiaridades do setor público e da nova função, valendo-me do concurso de especialistas e buscando a experiência acumulada dos funcionários. Finalmente, por ser cargo político, manter coerência com os princípios que defendo, submetendo-os ao debate democrático. Aprendi que enfrentando desafios, crescemos, ficamos felizes e, se vencedores, podemos olhar para trás com muita satisfação.


Walter Barelli - publicado originalmente na Revista Ser Mais, ano I, número 4


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