Walter Barelli - economista e professor

Informação: Apesar de você

03/08/2011, às 08h00

Apesar de você

Para os que não haviam nascido ou eram crianças no tempo da ditadura, o artigo de Sérgio Granja interpreta a realidade descrita por Chico Buarque de Holanda. Vivíamos uma ditadura e a música foi proibida. Cantá-la era protestar contra a ditadura e acreditar que esse dia viria "antes do que você pensa". - Walter Barelli

por Sérgio Granja

Comecemos pelo título: "Apesar de você". Você quem? Não se sabe exatamente, mas alguém que nos causa uma sensação de desagrado.

A letra inicia dizendo "Hoje você é quem manda / Falou, tá falado / Não tem discussão". Por aí temos, logo de cara, uma pista: trata-se de alguém muito poderoso e autoritário. O verso poderia estar espelhando uma relação que envolvesse autoridade e dependência: pai-filho, professor-aluno, patrão-empregado; ou, até mesmo, uma relação amorosa em que, num pólo, houvesse um caráter autocentrado, voluntarioso, e, no outro, uma personalidade sensível, apaixonada.

Em seguida, aparecem os versos que soam como uma lamúria: "A minha gente hoje anda / Falando de lado / E olhando pro chão, viu". E ficamos sabendo que ocorre uma situação opressiva envolvendo mais pessoas. Não se trata, pois, de uma opressão individual, mas de toda uma coletividade oprimida, humilhada. Poderíamos imaginar como espaço a família, a escola, a empresa ou o país.

Surge, então, a acusação: "Você que inventou esse estado / E inventou de inventar / Toda a escuridão". Essa situação é nova. A responsabilidade é de quem "inventou de inventar": "Você que inventou o pecado / Esqueceu-se de inventar / O perdão". E aí pode ser qualquer inventor: no limite, os inventores das bombas atômicas que destruíram Hiroshima e Nagasaki, ou das super-bombas que a aviação americana despejou sobre o Iraque e o Afeganistão, ou simplesmente quem "inventou de inventar" bombardear o país dos outros, chame-se George Bush (pai e filho) ou Osama Bin Laden.

O título ecoa no refrão: "Apesar de você / Amanhã há de ser / Outro dia". Isso nos diz que há esperança. Sublinhemos que o tempo é abstrato: "amanhã" tem o sentido de futuramente; "outro dia", de uma situação diferente.

O tom se torna profético: "Eu pergunto a você / Onde vai se esconder / Da enorme euforia". Denuncia a censura: "Como vai proibir / Quando o galo insistir / Em cantar". E anuncia a boa nova: "Água nova brotando / E a gente se amando / Sem parar".

Daí em diante, os versos vão se tornando mais e mais catárticos. Ameaçam: "Quando chegar o momento / Esse meu sofrimento / Vou cobrar com juros, juro". Prometem revanche: "Você vai pagar e é dobrado / Cada lágrima rolada / Nesse meu penar". E concluem: "Você vai se dar mal / Etc. e tal".

"Apesar de você" é de 1970. Vivíamos sob a ação repressora do famigerado DOI-CODI: assassinatos e torturas. Os direitos humanos eram violados; e as garantias constitucionais, canceladas. Os cárceres estavam repletos de presos políticos. Escritores, artistas e jornalistas sofriam os rigores da censura. O próprio Chico Buarque amargou o exílio, como Caetano, Gil e tantos outros.

Nesse contexto, a canção foi censurada. Mas circulava em fitas cassetes, clandestinamente. Até que, liberada com a abertura política de Geisel, estourou nas paradas de sucesso.

Indagado sobre o que achava das músicas de Chico Buarque, o general-presidente respondeu que não gostava delas. Até aí, sem novidades. O curioso foi que a sua filha, entrevistada pelos mesmos jornalistas, disse que gostava sim. Chico, então, comemorou com um rock que ironizava: "Você não gosta de mim / Mas a sua filha gosta".

Em "Apesar de você", Chico provocara: "Inda pago pra ver / O jardim florescer / Qual você não queria". E, finalmente, realizar-se-ia a vingança premeditada: "Você vai se amargar / Vendo o dia raiar / Sem lhe pedir licença / E eu vou morrer de rir / Que esse dia há de vir / Antes do que você pensa".

"Apesar de você" é catártica, quer dizer, é uma letra que convoca, mobiliza e tem a propriedade de botar para fora "Todo esse amor reprimido / Esse grito contido / Esse samba no escuro".

Sergio Granja é autor do romance Louco d’Aldeia em dois tempos (Record, 1996)



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