Walter Barelli - economista e professor

Setor de Comércio

m

PARTICIPANTES:

Amanda Galdeano - Responsável pelo RH do supermercado St. Marche

Thaís Marongori - Consultora de RH

Franciele Pereira - Responsável pela área de seleção do Grupo Pão de Açúcar

Muriel Mandi França - Gerente de Relações Trabalhistas do Carrefour

José Roberto Cunha - Consultor na área de Comércio Internacional do Sebrae

Daniel Garcia Correia - Responsável pelo Núcleo de Empreendedorismo e Desenvolvimento de cursos do Centro Universitário Senac

Lilá Cadrobbi Pupo - Coordenadora Geral de Estágios da Puc - São Paulo

Walter Barelli - Coordenador e conselheiro do Instituto Via de Acesso

Ruy Leal - Moderador e superintendente do Instituto Via de Acesso


Segundo o último censo do IBGE, 53% dos jovens não atuam na área de sua formação. Muitos deles desconhecem as oportunidades que o setor comercial oferece e a diversidade de atividades que ele engloba.

De forma geral, os jovens com ensino superior costumam ser aproveitados nas áreas administrativas do comércio. As maiores dificuldades encontradas pelos empregadores estão nos aspectos comportamentais que vão desde a postura nas entrevistas até o uso de gírias e vestimentas inadequadas para ingressar no mercado de trabalho.

A rede de supermercados St. Marche, por exemplo, trabalha atualmente com 40 estagiários, sendo que 32 deles possuem ensino médio. O estágio é realizado em sistema de job rotacion, no qual os jovens podem conhecer as diversas áreas da empresa até se identificarem em qual delas irão atuar. Uma conceituada loja de departamento que atua em todo o mercado nacional também trabalha recrutando estagiários. Atualmente, ela possui 60 jovens com ensino superior, estagiando em sua matriz, no Rio de Janeiro e nos depósitos situados na cidade de Jundiaí.

O grupo Pão de Açúcar possui um amplo sistema de recrutamento de jovens estudantes composto de 197 trainees, 228 estagiários e 740 aprendizes. Mesmo com este vasto quadro de seleção, o grupo afirma que ainda é baixo o número de candidatos por vaga, principalmente para estágios nas lojas da rede. Uma das saídas encontradas pela empresa foi fazer uma captação interna, onde filhos de funcionários são chamados para atuarem como menores aprendizes. Nas Lojas Marisa a situação não é muito diferente. A empresa possui 200 menores aprendizes e oito estagiários com nível superior, atuando nas suas regionais. Nessa rede, o problema se encontra na desistência dos jovens após todo o treinamento dado no programa trainee que a empresa adota. Eles desistem das vagas devido à alta carga horária ou à necessidade de mudança de cidade. Como saída, as lojas ampliaram o processo de seleção, incluindo senhoras com até 45 anos.

No Carrefour existem 200 estagiários e 700 aprendizes. Este quadro ainda deve crescer, pois o grupo está investindo na capacitação de jovens para atuarem nas áreas de perecíveis e segurança de alimentos. Para eles, o processo de seleção da empresa não se baseia apenas na qualidade de ensino do jovem, mas observam a determinação necessária para trabalhar no varejo, a vontade de colaborar com a empresa e a visão que o estagiário deve ter de prosseguir com uma carreira dentro da área.

As oportunidades existem e o setor está sempre em expansão. Prova disso é que áreas que não eram muito tradicionais para atuar no comércio estão sendo solicitadas, como segurança de alimentos, gastronomia, biologia, veterinária, farmácia, nutrição, direito, informática, psicologia e até educação física. Isso está acontecendo porque os empregadores estão cada vez mais preocupados com a qualidade dos produtos expostos e muitas empresas estão deixando de ser apenas distribuidoras para investir em suas próprias marcas, especialmente no caso de alimentos.

As dificuldades começam já nos processos seletivos. Os jovens têm apresentado pouca capacidade de transformar o conhecimento em estruturação para o trabalho. O raciocínio lógico é outro fator que gera muita dificuldade, assim como a falta de uma visão global do mundo ou uma visão de política corporativa. Há também uma falha na formação dos estudantes, que chegam ao mercado sem as competências e habilidades específicas, importantes para o comércio.

O jovem não sabe identificar exatamente o que o curso em que está matriculado oferece, gerando frustração muitas vezes. Além da formação precária, poucos mostram a ambição de fazer carreira na área de comércio. Isso está ocorrendo porque o setor não sabe "se vender" para este jovem.

Por outro lado, o desinteresse ocorre devido à grande carga horária que este setor demanda, especialmente nos casos em que o estabelecimento funciona à noite ou aos finais de semana e feriados. O varejo não tem o glamour profissional que o jovem idealiza. Outro fator que incomoda é que este setor é multifuncional, podendo gerar desencanto com algumas funções que não sejam tão atrativas.

A imaturidade também faz com que os jovens não se dediquem a atividades mais simples e, com isso, não visualizam a possibilidade de galgar cargos de gerência. Em função disso, atualmente o varejo conta com treinamento e desenvolvimento de pessoal, visando suprir as necessidades do mercado que a universidade não oferece.

A área que oferece mais desafios dentro do varejo é a logística e não há formação específica para isso. Este é um dos motivos que faz com que as empresas invistam no treinamento desses jovens.

Por outro lado, há projetos que dão um verdadeiro choque de realidade em seus estudantes, como é o caso do Senac, que mostra já no início do curso as dificuldades encontradas no mercado, incluindo carga horária de trabalho e aplicação prática do conteúdo aprendido.

Os educadores afirmam que é necessário oferecer aos jovens a oportunidade para o empreendedorismo. Eles precisam aprender a pensar em negócios. Não adianta só formar estagiários com habilidades específicas, mas é preciso investir na formação de mentores para que estes jovens possam se tornar gerentes capacitados.

Finalizando, há o consenso de que:

  • O varejo tem dificuldade de identificar o que o jovem gosta e as universidades não sabem o que o varejo tem para oferecer, pois este setor não tem glamour, é uma atividade multifuncional e nem sempre é atrativa, especialmente no que diz respeito à jornada de trabalho, que é muito longa, incluindo finais de semana e feriados, conforme o programa de escala existente. Com isso, há um turn-over muito elevado, de cerca de 35%, comprovando a falta de auto-estima dos jovens que trabalham no varejo;
  • Há a necessidade de um mentor ou supervisor de estágio, pois o jovem não tem maturidade para encarar este setor e por isso, apresenta falhas comportamentais, por exemplo, dificuldade de se portar, falar ou escrever, além do choque da realidade do mercado com relação ao que ele aprendeu na universidade. O jovem ainda não enxerga o varejo com possibilidades de uma carreira.
  • A universidade não está aberta ao varejo, pois prepara o jovem para as grandes empresas e dá pouca atenção para a área de serviço. Além disso, não oferecem a formação para as exigências do mercado de trabalho, inclusive competências e habilidades específicas, que tem ficado a cargo das empresas para suprir suas necessidades.
  • O jovem também precisa trazer algo novo para as empresas, ser mais empreendedor.

Instituto Via de Acesso, 23/05/2007.


ver outras mesas-redondas


Copyright Walter Barelli. Todos os direitos reservados.
Design by ON-LINE PLANETS