Walter Barelli - economista e professor

Setor de Bens de Capital

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PARTICIPANTES:

Fábio Malerba - Coordenador de Contratos e responsável pela área de estratégia da Dedini

Alexandre Massote - Coordenador do Curso de Engenharia de Produção da FEI

Cristian Jaty Silva - Vice-Presidente Comercial da Jaraguá Equipamentos

José Roberto Cunha - Consultor na área de Comércio Internacional do Sebrae

Jefferson Blaitt - Coordenador de Convênios e responsável pela Coordenadoria de Relacionamentos da Fatec - Sorocaba

Antão Ikegami - Diretor de Relações Empresariais da Fatec - São Paulo

Sérgio Luiz Pereira - Professor Doutor Representante da Faculdade de Engenharia da Puc - São Paulo

Walter Barelli - Coordenador e conselheiro do Instituto Via de Acesso

Ruy Leal - Moderador e superintendente do Instituto Via de Acesso


O setor de bens de capital está passando por uma transformação. Na década de 70, este era um setor almejado por muitos jovens engenheiros recém-formados. Nos anos 80 entrou em crise e ficou algum tempo em ostracismo, deixando de formar pessoas especializadas para esta área da economia. Atualmente, ele está vivendo uma retomada e volta a empregar jovens com bons salários, oferece boas oportunidades e tem potencial para absorver novos profissionais. É uma área apaixonante e o jovem consegue visualizar o tamanho da responsabilidade de seu trabalho na realização de determinado projeto ou produto.

Vivemos um momento em que percebemos toda a fragilidade da infra-estrutura do país. Tudo indica que estamos entrando numa fase de desenvolvimento contínuo e mais duradouro. O gargalo tem sido a formação de profissionais. No mercado de hoje temos pessoas que se formaram nos anos 70 e jovens recém-formados. Há uma lacuna de, aproximadamente, 30 anos. Os jovens ainda não vêem o setor de capital como uma oportunidade. Desconhecem esta área que movimenta cerca de R$ 100 bilhões ao ano.

Este setor, embora com números expressivos, conta com cerca de 90% a 95% das suas vendas para o mercado interno. Além disso, compete com produtos do mundo inteiro no mercado interno, por exemplo, com a China, que está tirando grande parte do marketing-share das indústrias brasileiras.

Há muita coisa para ser mudada, especialmente na infra-estrutura, que prejudica a exportação e o escoamento da produção brasileira. O Brasil precisa fazer a "lição de casa", precisa se voltar às bases. Caso contrário, um problema poderá puxar outro ou uma solução causará novos problemas. Por exemplo, se resolvermos o déficit habitacional, não teremos energia elétrica suficiente sequer para que cada casa tenha um chuveiro elétrico, quanto mais os outros eletrodomésticos, como geladeira, televisor, etc.

O déficit de energia no Brasil já é visível. Estamos recebendo muito investimento em bio-energia e energia renovável. A previsão é de que em cinco anos (10 para os mais pessimistas) haverá uma mudança no consumo de energia, tanto pela produção quanto pelos usuários finais. Atualmente, o potencial de produção de energia com o bagaço de cana-de-açúcar equivale a uma Itaipu inteira. Outro exemplo de energia alternativa seria a atômica, mas o impacto ambiental e a complexidade do processo não compensam.

Em contrapartida, as universidades estão distantes da indústria e este pode ser o motivo de não haver tantos jovens interessados no setor de bens de capital. As escolas precisam aprender a descobrir onde o mercado está precisando de profissionais para que possa direcionar seus estudantes. O crescimento do mercado de bens de capital tem sido uma surpresa. No atual momento, há uma grande demanda para recém-formados na área de informática, por exemplo. Mas a procura por cursos como engenharia mecânica está muito baixa. Existe certo "modismo" por parte dos jovens por determinadas profissões e a engenharia, de modo geral, está sendo procurada pelos jovens numa quantidade abaixo do que o país precisa. Com isso, o mercado não absorve toda a mão-de-obra formada nas áreas da moda, pois depois de quatro ou cinco anos exigidos para a formação, o mercado já está saturado. É necessário que haja essa aproximação entre as empresas e as universidades para que o setor de bens de capital seja visível para os estudantes. Afinal, está contratando.

A falta de profissionais também corrobora a idéia de que este momento de otimismo aconteceu de maneira muito rápida e pegou muitos desprevenidos. Até dois anos atrás ninguém falava em investir em álcool e hoje há um "boom" no Brasil e no mundo. Sendo assim, existem muitas vagas e ótimas oportunidades, mas faltam jovens preparados.

Na outra ponta, é visível que poucos jovens se interessam pela engenharia e um dos motivos pode ser uma falha no sistema educacional brasileiro. A engenharia está muito vinculada às disciplinas de matemática e física, que são mal explicadas no ensino médio. O governo federal até chegou a lançar um programa para estimular estes jovens a ingressar na carreira de engenharia, o Promove, mas o efeito ainda é muito tímido.

Outro fator preponderante nesta formação é o paradigma de sucesso, que considera que ficar em frente a um computador dá mais "status" do que trabalhar na produção. Além disso, nossos jovens são filhos de uma geração que viveu o auge da crise do setor de bens de capital e viu seus pais sofrerem com o desemprego. Muitos brasileiros também não querem ficar no país. É comum exigirmos do estudante fluência em inglês para qualquer vaga, enquanto ele mal domina o português.

Há também o problema de muitas empresas não visualizarem o estágio como complementação do ensino e formação de especialistas, mas sim, como uma mão-de-obra barata. Por outro lado, há uma pressão da Capes em estimular os professores a fazer mestrado e doutorado, afastando-os do mercado de trabalho. E as teses desenvolvidas pelos mesmos estão voltadas para o mercado internacional e não para as necessidades brasileiras.

Além da técnica da engenharia, o mercado necessita de líderes, pessoas que saibam negociar, que busquem soluções viáveis, que tenham o poder de síntese e de comunicação e que não tenham apenas o conhecimento técnico. Precisam trabalhar o conceito de empreendedorismo, gestão de negócios, raciocínio lógico e habilidades interpessoais. Também é importante o conhecimento de outras culturas, pois em um mundo globalizado é preciso saber trabalhar as diferenças culturais.

Também é relevante a constatação de que não há um planejamento educacional no país. O engenheiro, por base, não é empreendedor. Houve até uma iniciativa de um curso de empreendedorismo do Sebrae para os estudantes, mas não ocorreram inscrições.

Pensando na falta de planejamento do Brasil, surgiu a idéia de um amplo esforço para que empresas e escolas possam se juntar e fazer um projeto educacional de médio e longo prazos. Educação se faz com empreendedorismo e tecnologia e não dá para esperar o governo fazer esse planejamento. A idéia seria investir em métodos quantitativos, ensinar a trabalhar em equipe, além de organizar uma orientação desde a base até a pós-graduação, de acordo com as necessidades do mercado. Uma sugestão seria começar a trabalhar com o estado de São Paulo. Para lidar com a falta de empreendedorismo no mercado atual, algumas empresas criam unidades de negócios, com seus gestores tocando essas unidades como se empresas fossem. Dessa maneira, devem apresentar resultados, "pagar" pelos serviços e produtos oferecidos por outras unidades de negócios e assim todos devem seguir a cadeia de resultados a obter.

Finalizando, há consenso de que:

  • A indústria de Bens de Capital passa por um longo período sustentável de crescimento, com projeção de que isso continuará ocorrendo por, pelo menos mais 5 a 10 anos. Talvez, mais.
  • Houve afastamento da universidade em relação ao setor e isso causou a falta de comunicação entre essas partes, bem como o desconhecimento dos estudantes das possibilidades e potencialidades de Bens de Capital para as futuras gerações de profissionais. A indústria está muito empenhada em se aproximar e fortalecer as relações com as universidades e escolas de ensino tecnológico.
  • Há um forte interesse da indústria de bens de Capital em formar os seus profissionais e investem, fortemente, em seus programas de estágio e trainee para obterem novos quadros de profissionais apaixonados e empreendedores.

Instituto Via de Acesso, 9/4/2007.


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