Walter Barelli - economista e professor

Setor da Indústria Automobilística

m

Participantes

Prof. Renato Romio Escola de Engenharia Mauá

Prof. Edson Stebio Faculdade de Engenharia Industrial- FEI

Prof. Carlos Ribeiro CEFET/SP

Alecsandro Souza Sebrae/SP

Walter Barelli, conselheiro do Via de Acesso e coordenador geral da mesa-redonda;

Ruy Leal, superintendente geral do Via de Acesso e moderador da mesa-redonda.

Conteúdo

A indústria automobilística iniciou suas atividades no Brasil nos anos de 1950/60 sem que houvessem profissionais capacitados para tocá-la. Faltavam engenheiros e especialistas, principalmente. Mais ou menos o que ocorreu recentemente no Paraná. A diferença é que a "importação" de profissionais - engenheiros e especialistas - ocorreu em outros estados da União.

Quando o pioneirismo da instalação da indústria automobilística ocorreu na região do ABC, a falta de engenheiros levou a instalação de importantes e tradicionais escolas superiores na mesma região, como foram os casos da FEI e da Escola de Engenharia Mauá. Foi nessa época que as escolas superiores, notadamente as de engenharia com cursos de mecânica e elétrica, se multiplicaram.

A distância entre o que a escola está formando e o que a indústria automobilística está procurando vem crescendo sistematicamente. Já nos anos de 1985/88, quando a indústria automobilística passava por um rigoroso downsizing as escolas mais organizadas sentiram a necessidade de repensar seus cursos. Desde essa época, a escola vem desenvolvendo esforços no sentido de se aproximar mais da indústria, realizando eventos, feiras de formatura, palestras de dirigentes na escola, entre outras iniciativas.

De toda maneira, a escola, segundo os seus dirigentes, dificilmente consegue acompanhar a evolução na empresa. O grande desafio é conseguir aproximar mais o que a escola está fazendo com a realidade da empresa, especialmente quando a questão envolve a tecnologia. Nesse ponto a escola tem grandes dificuldades para acompanhar, pois os recursos necessários são muito altos e exigem relações mais intensas e duradouras com as empresas, o que ainda está longe de acontecer.

Outro fator que acaba por influenciar no distanciamento das realidades das escolas em relação às empresas é a exigência do MEC quanto ao número mínimo de professores com o título de mestre ou doutor nas escolas superiores. Essa condição fez com que as escolas perdessem muitos professores "práticos", sem essa titulagem, mas com grande e atualizadíssima experiência de empresa, com acompanhamento "in loco" do que está ocorrendo no chão de fábrica. Entretanto, as escolas mais atentas estão mantendo seus professores sem titulação, exatamente pela experiência e pela competência prática que possuem.

Apesar dessa situação de descompasso entre empresas e escolas, deve ser mencionado que os estudantes estão saindo para as empresas com relativo preparo técnico, porém com fraco desempenho nas competências administrativas. Com base nessa situação real, algumas escolas estão oferecendo matérias administrativas para melhor preparar seus alunos para atuar como empreendedores.

A exigência de se possuir em seus quadros professores de período integral traz um problema: perde o vínculo com a indústria, o que a escola não deseja. A escola entende ser importante que seu professor trabalhe na indústria durante o dia e a noite vá à escola dar aula. Mas, aí, como ter professores com mestrado ou doutorado? Alguns profissionais até conseguiram fazer o mestrado ou doutorado, mas, por liberalidade da empresa.

Diante do cenário apresentado foram propostas duas iniciativas para fortalecer a relação entre empresas e escolas:

- Abrir a possibilidade do profissional com competência, mas sem título, atuar na escola. E o professor fazer palestras e realizar projetos na empresa.

- Estabelecer mecanismos e instrumentos que fortaleçam as relações entre empresas e escolas, como reuniões periódicas entre professores e profissionais de empresas, seminários conjuntos e feiras de estudantes apoiadas. Com um conjunto como esse de atividades entre as partes, a formação de conteúdos, atualização de currículos e de realidades serão mais constantes, com melhores resultados as escolas e seus alunos e para as empresas, absorvedoras de mão-de-obra.

Quando foi concebida a LDB - Lei de Diretrizes e Bases da Educação, os educadores consideraram que os professores que possuíssem as competências necessárias deveriam ser certificados como mestres, atendendo as exigências nesse sentido emanadas pelo MEC, sem necessidade, portanto, das escolas perderem esses professores-práticos.

Como exemplo foi colocado o caso do artesão. O profissional de artesanato é certificado quando faz uma peça em frente a uma banca de avaliadores. Na Educação deveria ocorrer da mesma maneira para os professores-práticos, pois essa possibilidade está prevista na LDB. As faculdades técnicas deveriam protestar contra a inaplicação da LDB para os seus professores-práticos.

A indústria automobilística mobiliza outras indústrias e empresas. Em seu entorno estão as indústrias de autopeças, as empresas de propaganda, informática, tecnologia robótica, oficinas mecânicas e inúmeras outras pequenas e médias empresas de produtos e serviços que funcionam em função de uma determinada montadora. Todas representam um manancial de oportunidades para os jovens.

Na montadora o jovem tem, regra geral, realização e visão de negócio menores do que trabalhar numa indústria de autopeças, por exemplo. Mas, a montadora precisa estar bem para propiciar espaços para os estudantes em diversas atividades junto às empresas que estão no entorno. Sabendo de sua importância na cadeia e em função da briga por aumento contínuo da qualidade de seus produtos, as montadoras passaram a realizar inspeções nos fornecedores menores para aumentar, sistematicamente, a qualidade do material fornecido. Todo esse novo procedimento gerou novas oportunidades de aproveitamento de jovens recém-formados e estagiários de boas escolas, ávidos por participar desse mundo.

Algo que parece ser claro é que os engenheiros possuem competência técnica suficiente para executar, inclusive, trabalhos em outros setores que exijam a sua competência técnica, como são os casos de seu aproveitamento no setor financeiro, no mercado de capitais, em vendas técnicas, entre outras. Falta, porém, melhor desenvolvimento de empreendedorismo, mesmo quando vai atuar como empregado. A visão empreendedora é exigida no mercado de trabalho e o engenheiro normalmente não é preparado na escola para utilizá-la.

Mais uma vez aparece a necessidade latente de melhor entrosamento e relação entre empresas e escolas. Mal comparando, no exterior essa relação é muito mais forte e presente. Lá, a empresa procura a escola, normalmente. No Brasil a escola é quem pede para ir até a empresa, que reluta em recebê-la muitas vezes por ser uma iniciativa sem objetivos claros a alcançar para ambas as partes. Não há dúvidas de que essa relação precisa ser incentivada e aplicada, mas com um plano discutido anteriormente e com interesses reciprocamente atendidos com a ação. Para tanto é necessário que haja confiança entre empresas e escolas, coisa que hoje não atinge um patamar razoável, pois a empresa entende que não há comprometimento por parte da escola, que não dá continuidade às ações iniciadas. Quando a empresa procura a escola não há mobilização de interesses. Ela simplesmente diz "procure o professor fulano de tal" e dá por encerrada a sua participação.

Mas, estamos formando o que interessa às empresas? O aluno está preparado para atuar na indústria automobilística? Há carências em sua formação? Se há, quais são? Essas questões são fortes no cotidiano das escolas. De modo geral os alunos estão preparados para assumir funções, pelo menos os alunos oriundos de boas escolas superiores. Tanto que sempre houve demanda para os cursos de engenharia e tecnológicos. No entanto, poderia ser melhor se algumas inconsistências forem suprimidas.

- Falta iniciativa aos alunos, que pode ser desenvolvida por meio da realização de projetos para a indústria. Eles se desenvolvem mais com projetos e se percebem como alguém que deve ir atrás e não ficar esperando, só fazendo o que pedem. Em laboratórios de motores, que atendem inúmeras montadoras, cerca de 30 estagiários participam. Todos são aproveitados ao final de seus projetos. O ideal é que tivessem um laboratórios desses em cada área.

- Tem havido também uma deteriorização do aluno no sentido comportamental, faltando a ele determinadas habilidades que são exigidas pelo mercado de trabalho e que ele não valoriza muito enquanto estudante. Falta-lhe a comunicação escrita e a verbal, como também falta método para atuar, relacionamento interpessoal, saber trabalhar em equipe e criatividade voltada para a inovação.


Instituto Via de Acesso, 22/11/2006.


ver outras mesas-redondas


Copyright Walter Barelli. Todos os direitos reservados.
Design by ON-LINE PLANETS