Walter Barelli - economista e professor

Setor de Eletroeletrônicos

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Participantes

Prof. Renato Giacomini FEI

Fábio Gurman - Gerente Geral de RH LG Eletronics

Wanderlei Teixeira - RH Corporativo Gradiente

Walter Duran - Diretor Executivo Philips

Antonio Geraldo Wolff - Gerente Geral RH Semp Toshiba

Prof. Sergio Luiz Pereira PUC e FAAP

Prof. Augusto Pavão Inst. Mauá

Prof. José Roberto Cardoso - Vice-diretor Poli/USP

Walter Barelli, conselheiro do Via de Acesso e coordenador geral da mesa-redonda;

Ruy Leal, superintendente geral do Via de Acesso e moderador da mesa-redonda.

Conteúdo

As empresas mais estruturadas do setor de eletroeletrônicos apostam no acompanhamento constante como o método mais adequado para o desenvolvimento de pessoas, especialmente os inexperientes. Algumas empresas, ao final de seu programa de estágio, chegam a efetivar 100% de seus estagiários.

Com o "boom" do setor de Telecomunicações ocorrido no Brasil há alguns anos, diversas escolas superiores tiveram também um expressivo aumento de estudantes em seus cursos de engenharia elétrica. Após esse período de grande crescimento, o setor de Telecomunicações passa agora por momento mais equilibrado, demanda sendo desviada para eletrônica de potência e por eletrotécnica. A flutuação nesse meio é muito grande, com demandas sendo criadas rapidamente e solicitando respostas da universidade bem rápidas. Entretanto, a universidade é mais demorada, sendo difícil para ela seguir os passos mais rápidos da empresa.

Para acompanhar os movimentos rápidos das empresas é necessário que as escolas participem mais do que ocorre no universo empresarial. A escola deve ser menos reativa e muito mais pró-ativa. A escola sempre está correndo atrás, com lacunas de cinco ou seis anos entre o seu currículo e aquilo que é necessário e é praticado nas empresas. A escola precisa compreender que a empresa está preocupada com o estudante, seu futuro profissional, mas olhando de que maneira ele, estudante, poderá contribuir com o desenvolvimento de seu negócio.

Fora do Brasil, nos países desenvolvidos, o relacionamento estudante-empresa ocorre desde o 1° ano. A partir do meio do curso o "estágio" ocorre nas empresas. Lá, a relação entre empresa e escola é muito mais direta e forte.

Talvez o modelo de financiamento das universidades, públicas e privadas, possa ser o que favorece a essa "desconexão" entre empresa e escola ocorrer. Lá fora, de 24% a 25% do orçamento da universidade vêm de mensalidades. O resto para cobertura do orçamento é proporcionado pela relação com as empresas. Nos Estados Unidos, no IMT, por exemplo, o seu setor de elétrica e computação recebe cerca de 100 milhões de dólares só de royalties pelo desenvolvimento de produtos e serviços para as empresas parceiras. No Brasil, embora a relação entre empresas e escolas venha melhorando a cada dia, o grosso do financiamento se dá pela mensalidade paga pelo estudante. Assim, fica muito difícil olhar para frente e ter uma ação pró-ativa na relação com a empresa.

Diante dessa realidade, muitas empresas estão optando por criar o seu próprio centro de pesquisas, o que não leva, exatamente, a uma solução barata, mas a mais acessível pela urgência com que precisam ter resolvidas as suas demandas de pesquisa. Além disso, algumas empresas ao firmar acordos de pesquisa com universidades, entendem ser absolutamente necessário ter mais controle da maneira como os recursos encaminhados por elas são aplicados. Isso, muitas vezes, é entendido como ingerência pela universidade-parceira o que também propiciou empresas a aplicarem esses recursos em institutos próprios.

Em diversos pontos, porém, estamos engatinhando na relação empresa-escola. Muitas escolas possuem fundações para tratar dessa relação. Essas fundações cobram taxas altas para firmar os contratos com empresas. As empresas (muitas multinacionais), de seu lado, precisam prestar contas de seus investimentos à sua respectiva matriz. A questão do sigilo sobre os avanços e resultados das pesquisas realizadas não são observadas como devia ocorrer pelas escolas. Os contratos precisam ser melhor elaborados e entendidos para a posterior exploração das patentes, como também é necessário que as escolas, notadamente as públicas, percebam as relações e acordos com as empresas privadas como uma oportunidade e não como algo impuro ou, pior, como "se deixar explorar pelo capital privado". Isso afasta empresas interessadas, perdendo-se grandes possibilidades para as partes e para o País, pois competência técnica as escolas possuem, ficando subutilizadas ou inoperantes.

De outro lado, parte das escolas entende que as taxas cobradas pelas fundações, que variam entre 25% a 30% do contrato, são bastante razoáveis ("está de graça"). Manter os laboratórios sai muito caro, afirmam. Quem prefere partir para laboratórios próprios de pesquisa sabe que sai mais caro. Quanto ao sigilo, reclamado pelas empresas, as escolas reconhecem que realmente é um problema no Brasil. Apesar de assinarem em seus contratos claros "termos de sigilo", pela sua organização e operação fica muito difícil manter isso, assumem.

Num ponto, entretanto, concordam empresas e escolas: a relação entre essas partes deve ser muito forte, pois, caso contrário, nem um lado nem outro conseguirá manter o seu centro de pesquisas. Estando na empresa ou na escola, o pesquisador não se desliga de sua universidade.

Outro ponto importante nas relações entre empresa e escola é a presença do estudante na empresa, como estagiário. É necessário que haja melhor entrosamento e unidade de pensamento entre empresas e escolas. Algumas escolas entendem que nem todas as empresas que aceitam receber estagiários são organizadas como a LG, Semp Toshiba, Gradiente e Philips. Para muitas que não são assim, falta ética na execução de seus programas de estágio. Sugerem até que se crie um manual de estágio, pois diversas empresas tratam os estagiários como mão-de-obra disfarçada. Como exemplo, algumas escolas entendem que não tem cabimento oferecer estágio para estudantes de engenharia de 3° ano. Muitas empresas não entendem isso e oferecem estágios a estudantes nessa etapa do curso, momento em que ainda precisam absorver muita teoria, sem tempo, portanto, para atuar, como se profissionais fossem, na empresa.

Nos anos de 1960, buscava-se o engenheiro generalista. Nos anos de 1980 passou-se a buscar o engenheiro especialista. Agora estão resgatando o generalista. Na Europa os três primeiros anos do curso são considerados básicos. Nos dois últimos anos ele se identifica com o quer fazer (generalista). No Brasil faltam engenheiros. Formamos cerca de 20 mil engenheiros por ano. Abaixo do que precisamos para crescer. A China, Índia e Coréia formam muito mais, cerca de 200 mil engenheiros por ano. Será necessário que em 10 anos se aumente em 5 vezes o número de engenheiros formados por ano. Hoje, mais de 50% dos cargos de presidentes de empresas são ocupados por engenheiros. Alguns outros fatores também contribuem para que o número de engenheiros que se forma no Brasil seja menor do que é necessário:

- Faltam cerca de 80 mil professores de exatas (física, matemática e química) no ensino médio. Não há estímulo para os alunos do ensino médio virem a estudar para serem engenheiros.

- 50% dos estudantes universitários saem para outro curso já no primeiro ano de universidade.

Entretanto, quando se levanta como os estudantes e recém-formados estão chegando nas empresas, é preciso colocar a bola no chão. "No prático, no real" é fundamental estar atento às competências, às habilidades que são exigidas nas empresas e que não é objeto da atuação das escolas em seu dia-a-dia na formação de seus alunos. A maioria dos estágios oferecidos pelas empresas é executada por estudantes de escolas menos categorizadas. E se for fazer um levantamento criterioso de como chegam esses estudantes chega-se a um quadro muito desanimador. Os nossos futuros profissionais não sabem escrever, não sabem falar, não sabem se relacionar, para dizer o mínimo. E todas as escolas, as descritas como de 1ª linha, 2ª linha ou 3ª linha, apresentam o mesmo problema junto aos seus alunos e recém-formados. Se a análise for direcionada para os engenheiros o problema é o mesmo. As escolas formam seus engenheiros para grandes empresas. Não estão preparando seus alunos para atuar na pequena empresa.

Também é importante que os estudantes sejam inteirados e preparados para atuar no mercado de trabalho com espírito empreendedor, com liderança, criatividade, com capacidade de negociação.

Mas, há trabalho para o jovem universitário no setor de eletroeletrônicos? A resposta é clara: há. Porém, o grau de exigência é tão alto como em outros setores competitivos. Há trabalho para jovens com atitude, pró-ativos, com postura ética, com boa comunicação escrita e verbal, com capacidade para atuar em equipe e espírito empreendedor, criativos e inovadores, com resistência à pressão e frustrações, pois o setor é extremamente competitivo. E acima de tudo, é preciso que se prepare o profissional, mas é fundamental que se prepare o homem, pois os dois andam juntos.


Instituto Via de Acesso, 25/10/2006.


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