Walter Barelli - economista e professor

Setor de Petróleo e Derivados

m

Participantes

Sergio Almeida Correa - R H da Construtora Schahin

Edson Tríboli - Coordenador do curso de Engenharia Química do Instituto Mauá de Tecnologia

José Luiz Bertevello - Coordenador do curso de Engenharia Química da Faculdade de Engª Industrial

Francisco Tadeu Degasperi - Faculdade de Tecnologia - Fatec/SP

Ruy Fernando Ramos Leal - Instituto Via de Acesso

Walter Barelli - Conselheiro do Instituto Via de Acesso e Coordenador Geral da mesa-redonda

Conteúdo

A extração de petróleo e seu refino representam um enorme desafio para o nosso país e um mundo de oportunidades de trabalho muitíssimo especializado e com características muito próprias. Tem havido grande evolução tecnológica brasileira nos processos de extração de petróleo, principalmente em águas profundas, que resultou na propalada auto-suficiência em petróleo e que sinaliza para o contínuo crescimento nos resultados obtidos nesse campo pelo país.

A coordenação e o comando de todo o processo de extração e refino de petróleo e derivados são da Petrobrás, que define as condições, os procedimentos, os cuidados operacionais e profissional-pessoais (que são extremos) e o rígido sistema de segurança aplicado nos campos de extração marítimos.

Trata-se de um mundo desconhecido, em seus detalhes, pela grande população brasileira, especialmente pelos profissionais e por boa parte das escolas, pois representam um "mar" de oportunidades de trabalho, muito bem remuneradas, mas com dificuldades muito grandes de preenchimento, por falta de candidatos habilitados.

Sergio Almeida Correa, RH da Construtora Schahin, empresa que atua fortemente, por meio de contrato com a Petrobrás, na extração de petróleo na Bacia de Campos, apresentou um interessantíssimo relato sobre a realidade e as enormes dificuldades no que tange encontrar os profissionais habilitados e, verdadeiramente preparados para viver embarcados, por períodos de até 15 dias em alto-mar, com iguais períodos subseqüentes em casa.

As empresas contratadas que atuam na extração de petróleo, de maneira geral, enfrentam dificuldades crescentes na busca de profissionais para os seus postos de trabalho, vislumbrando maiores dificuldades ainda pois possuem projetos de curto e médio prazo que exigirão mais profissionais habilitados e com clara visão do que é trabalhar embarcado.

A grande maioria de profissionais utilizados nesse verdadeiro mundo de trabalhos e ocupações é originária de outras regiões, morando com suas famílias em cidades que se situam longe do mar ou da localidade onde atuam. Como os embarcados trabalham pelo sistema de escala, passando períodos médios de 15 dias no mar, deixando suas famílias em terra, fica melhor para esses profissionais serem deslocados por suas contratantes, ida e volta, a cada novo período embarcado.

Diversas das funções especializadas desse setor precisam ter seus profissionais preparados e "formados" pelos próprios contratantes, já que a realidade profissional dessas funções difere, e muito, de toda experiência anterior que o profissional possui. É um mundo novo para esses profissionais, que aprendem a trabalhar confinados, exigindo preparo orgânico, psicológico e mental para o correto desenvolvimento de suas funções. São capacitados durante um período que vai de 3 a 6 meses, vivendo embarcados e conhecendo a atividade e o negócio.

A necessidade por profissionais para atuar em funções "embarcadas" é crescente. Muitos técnicos que ocupam diversas dessas funções não possuem formação escolar oficial, atuando muito mais em razão de seu preparo e experiência prática. Quanto à remuneração há diferenças de até 260% entre o que a mesma função recebe em terra para aquela que exercida no mar.

Embora não seja essa a realidade da Schahin, que tem sua mão-de-obra 100% nacional, em geral o que ocorre nesse setor é a ocupação das funções técnicas por brasileiros e funções mais especializadas por estrangeiros, o que denota a dificuldade de se encontrar determinados profissionais habilitados no Brasil para esse setor.

Na região de Macaé/RJ, por exemplo, os RHs locais das diversas empresas contratadas para a extração de petróleo na Bacia de Campos têm reunindo-se para, em conjunto, elaborarem um curso para "Segurança do Trabalho", próprio para atuação em alto-mar, pois simplesmente não se encontra profissional, área essa fundamental para a realização dos trabalhos nas plataformas ou nas embarcações.

As embarcações só podem ser manobradas por profissionais muitíssimos capacitados e preparados da Marinha. É norma.

O quadro apresentado não se encerra por aí. Há também a questão do gás natural, fortemente em pauta após o "affair Bolívia", que deixou exposta a enorme fragilidade da política energética brasileira, quase 100% dependente de um único fornecedor externo, deixando em perigo todos os planos de crescimento da produção interna.

Com essa impactante questão em alta no cenário, fortaleceram-se os planos de rápido aproveitamento das descobertas de gás e petróleo na Bacia de Santos, que exigirão enormes investimentos e necessitarão de profissionais, em diversos níveis e habilitações, capazes de dar vazão aos desafios da exploração dessas reservas. Nos próximos 5 anos a previsão de investimentos da Petrobrás gira em torno de 4,5 bilhões de dólares e a previsão para 12 anos é de 21 bilhões de dólares de investimentos totais - Petrobrás e outros. É muito investimento que gerarão muitas oportunidades e exigirão profissionais preparados.

Hoje não há, na escala necessária, universidades e escolas preparando ou se preparando para atender a próxima futura demanda. Além disso, companhias como a Petrobrás, só para citar esse exemplo, já enfrentam dificuldades para encontrar (e capacitar) profissionais para a sua unidade refino de São José dos Campos. A necessidade das empresas é tanto maior quanto o nível de despertar das escolas universitárias e técnicas para formar profissionais nessa área. Há, claro, muitas parcerias formadas entre universidades e escolas técnicas para "formar" profissionais para exploração e refino de petróleo e derivados. Mas, longe de atender a atual demanda, mantido o atual cenário educacional, a situação se complicará, reconhecem os professores Edson Tríboli, da Mauá, José Luiz Bertevello, da FEI e Francisco Tadeu Degasperi, da Fatec/SP.

O que pode ser feito então? Segundo os especialistas da mesa-redonda, algumas ações imediatas podem ser executadas, entre as quais são destacadas:

  • Estágio de férias para o jovem compreender esse mundo e identificar se gosta ou não da experiência e do futuro campo de trabalho.
  • Parceria entre escolas e empresas exploradoras de petróleo, para estágio de estudantes universitários e técnicos nas localidades de apoio aos embarcados.
  • Palestras nas escolas de profissionais das empresas que atuam na exploração e refino de petróleo, apresentando o mundo do petróleo, suas oportunidades e características.
  • Parcerias entre empresas e escolas para exploração dos recursos existentes nas escolas para pesquisas de processos ou de desenvolvimento. Professores envelhecem, alunos não, afirmou José Tadeu, da Fatec.
  • O professor José Luiz Bertevello propõe um interessante conceito, o "estagiohabilidade", isto é, o estudante deve se preparar e ser preparado para realizar estágio. No geral, o estudante não conhece o mundo do trabalho, não desenvolve as habilidades necessárias e não possui postura adequada para atuar nesse mundo.

De toda maneira, os representantes das escolas presentes já se posicionaram quanto à necessidade de atuarem, mais incisivamente, na realização de cursos e atividades voltadas para o setor de petróleo e derivados, a partir de:

  • Sensibilização interna para o oferecimento de matérias e cursos (graduação e/ou pós-graduação) para os estudantes e profissionais interessados.
  • Disponibilização de laboratórios de combustíveis (gasolina, diesel, biodiesel e etanol) para pesquisas.
  • Disponibilização de laboratório de automação para pesquisa de indústrias de processamento - petróleo e petroquímica.
  • Laboratório de análise de risco - para analisar a viabilidade de projetos e realizar ensaios.
  • Cursos de 3 ou 4 anos, Tecnológicos, voltados para: Soldagem, Mecânica de precisão e MPCE (Materiais, Processos e Componentes Eletrônicos).

No final dos trabalhos, se mostraram interessadas e empenhadas em ter parcerias com as empresas que realizam exploração de petróleo para apresentação do mundo do petróleo ás suas comunidades acadêmicas, com o fim de despertar vocações, de modo a deixar claro a essas comunidades que se está oferecendo muitas oportunidades profissionais dentro de um mundo bem diferente, que exigirá um estilo de vida bem diferente daqueles que se candidatarem.


Instituto Via de Acesso, 24/07/2006.


ver outras mesas-redondas


Copyright Walter Barelli. Todos os direitos reservados.
Design by ON-LINE PLANETS