Walter Barelli - economista e professor

Terceiro Setor

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Conforme previsto em sua programação para 2006, o Instituto Via de Acesso realizou em sua sede, na manhã de 29 de maio, sua 3ª mesa-redonda sobre o tema "Educação, Trabalho e Empreendedorismo para o Jovem Estudante Brasileiro", discutindo as oportunidades e exigências para os estudantes no Terceiro Setor. A coordenação dos trabalhos coube ao conselheiro do Instituto e ex-ministro do Trabalho, Walter Barelli.

Participaram da mesa-redonda, Alberto Pinto, da empresa de consultoria de projetos sociais, TXAI; Karinna Forlenza, do Instituto Vivo; Ismael Rocha, da ESPM Social; Maria do Carmo Krehan, da Fundação Abrinq; Alecsandro Souza, do Sebrae; Simone Tavit, da FAAP; Nadja Faraone, da Abong, Daniel Gonçalves, da Alfabetização Solidária e Ruy Leal, do Instituto Via de Acesso.

Walter Barelli fez um apanhado geral sobre os objetivos do trabalho, considerando que o Terceiro Setor é um grande absorvedor de mão-de-obra e que isso pode representar oportunidades aos estudantes interessados em atuar em entidades e organizações do setor. A mesa-redonda, garantiu ele, poderá nos sinalizar quais são essas oportunidades e como elas se apresentam para os nossos estudantes universitários.

Nadja Faraone, da Abong, informa que falará sobre um campo de atuação do Terceiro Setor, o campo que luta por direitos. No seu ponto de vista, existem outros tipos de Ongs, que prestam serviços, o que não é o foco de experiência dela. Considera que faltam mais dados na Abong sobre o aproveitamento de jovens no 3° Setor. Tem havido muita mudança no 3° Setor e os jovens devem se envolver com as questões de direito no 3° Setor. Para ela, quem atua em Ong tem que ser militante.

Karinna Forlenza, do Instituto Vivo, desde o tempo em que atuava no Etho's, observa que os jovens seguem "ondas". Explicou o conceito com 2 exemplos: a "onda" do consumismo o jovem segue, bem como a "onda" do "vou fazer o bem", o jovem segue. O jovem tem portas de entrada para o 3° Setor a partir da universidade, com a empresa Jr. ou por meio de pessoas envolvidas com movimentos sociais. São "ondas". Às vezes o jovem entra numa Ong pensando em trabalho e carreira e vê que é trabalho e militância e se decepciona. Não existe um serviço de orientação ou uma instituição que explique o que é trabalhar no 3° Setor.

Maria do Carmo Krehan, da Abrinq, acha que o 2° Setor deve perceber as "pistas", ou seja, o que é de fato trabalhar no 3° Setor. Profissional que atua há anos no 2° Setor e que quer dar uma guinada em sua vida profissional passando a atuar no 3° Setor, precisa ter a clara visão do que é fazer isso, e normalmente não tem. No caso da Fundação Abrinq, que trabalha com jovens carentes, para estes trabalhar no 3° Setor é uma possibilidade real. Muitas vezes surgem oportunidades aos jovens que foram apoiados e desenvolvidos pelas organizações sociais, oportunidades essas oferecidas pelas próprias organizações sociais. Isso ocorre pelo vínculo afetivo que é construído ao longo dos anos de convivência. Encerrou dizendo que a vivência e experiência obtidas no 3° Setor sempre são decisivas para quem quer fazer o caminho inverso, isto é, atuar no 2° Setor.

Alberto Pinto, da TXAI, entende que o jovem deve sentir o que é o 3° Setor. Essa experiência favorece o olhar social, coisa que é valorizado pelas empresas em geral. Jovem que foi voluntário em algum projeto social tem valor no mercado de trabalho.

Simone Tavit, da FAAP, vê mudanças no comportamento dos estudantes em relação ao 3° Setor. Citou que há alguns anos, no ano do voluntariado, muitos alunos enxergaram - "ah, isso vai fazer bem para o meu currículo". Houve mobilização na Faap, contataram diversas Ongs, mas a grande maioria não sabia como receber os estudantes. Os alunos procuram enxergar diferente agora. Não focam mais o valor agregado ao currículo, mas, no que essa experiência vai favorecer o seu desenvolvimento profissional e social.

Já Maria do Carmo Krehan acredita que no currículo escolar "Responsabilidade Social" e "Empreendedorismo" são temas tratados de maneira transversal e não complementar.

Alecsandro Souza, do Sebrae, iniciou dizendo que o Sebrae tem um contato muito próximo com o 3° Setor. Entende que esse é o campo mais rico para o jovem. Será o grande empregador do futuro. A pergunta que se faz no meio empresarial é - "como posso fazer um investimento social e ter bons resultados?" Os campos são múltiplos e as ações das organizações precisam ter resultados. E as empresas adotam a equação - ações sociais + visão empresarial - para obter resultados sustentados. A empresa, no geral, tem consciência da importância da responsabilidade social e que isso deve permear toda a sua estrutura, porém, as entidades devem abandonar o modelo de só atuar em cima de patrocínio. Acabou o patrocínio, acaba o projeto. As entidades devem produzir os seus recursos. O 3° Setor é um campo riquíssimo de conhecimento para o jovem aproveitar.

O prof. Ismael Rocha, da ESPM Social, acredita que o momento é muito especial. Há organizações do 3° Setor (Santas Casas, como exemplo) que sustentam as questões sociais no Brasil. Seria, segundo ele, mais caótico se elas não existissem. Hoje, a realidade é que há muita competição entre as organizações do 3° Setor. Há 3 blocos de tipos de instituições no 3° Setor:

a) Organizações não profissionais: são aquelas que não se profissionalizaram, mas que executam iniciativas sociais importantes em regiões carentes, onde grandes instituições não vão.

b) Organizações profissionais: são aquelas que se profissionalizaram, realizando grandes empreendimentos sociais, sustentados, como a AACD, por exemplo.

c) Instituições de empresas: fundações ou institutos, financeira e estruturalmente bem organizadas e sustentadas.

O mercado de trabalho localiza-se nas duas últimas, mas alguém deve bancar o primeiro tipo de Ong, pois apesar de não profissionalizadas realizam trabalho social de grande importância, crucial para comunidades afastadas, onde governo e Ongs profissionais não chegam. Tem outra posição quanto à importância da militância. Acredita que as Ongs precisam de profissionalismo e não de militância. Diz que precisamos profissionalizar as Ongs para propiciar resultados sustentáveis e para inserir os jovens no 3° Setor.

Karinna Forlenza afirma que a Ong não deve ser uma casa de passagem. Reafirma a posição de Ismael Rocha dizendo que militante quer mudar o mundo, não a Ong onde atua. A mobilização não é fator "mobilizante" para o jovem. A educação é!

Nadja Faraone confirma que nem toda organização do 3° Setor é capaz de gerar renda. Outros precisam ajudar, bancar essas organizações. A educação deve preparar o jovem para viver em sociedade.

Walter Barelli levantou outra questão para a mesa: "O que falta ao jovem para atuar no 3° Setor?" "Quais as necessidades que ele deve suprir?"

Alecsandro Souza iniciou dizendo que a "narrativa" da vida está muito diferente. Esteve, recentemente, em Itararé, realizando uma palestra para cerca de 300 jovens perguntou qual era a sua perspectiva de futuro. Não conseguiu arrancar dos jovens qualquer coisa mais palpável sobre o próprio futuro. De acordo com Souza, a mídia em vez de mobilizar os jovens está angustiando. As oportunidades profissionais estão raras e o jovem precisa olhar o 3° Setor como uma grande avenida de oportunidades profissionais. Irá requerer deles, entretanto, alguns requisitos:

  • Estar preparado para atuar fora de sua "casa".
  • Estar preparado para atuar em local degradado.
  • Estar preparado para enfrentar um choque cultural.
  • Conhecer o mundo como ele é.
  • Estar preparado para trabalhar por projetos.
  • Saber que vai trabalhar em transformação de vida.

Daniel Gonçalves, da Alfabetização Solidária, acredita que falta ao jovem do interior conseguir enxergar oportunidades no 3° Setor e que aos jovens da capital, que possuem idealismo muito grande, precisam saber realizar melhor planejamento e estabelecer suas metas. A militância como ação geral não serve. Se quiserem ser militantes, que o sejam de maneira específica, deixando o foco de sua atuação voltado para os objetivos sociais das organizações das quais participam.

Alberto Pinto pergunta: quem são esses jovens que estão nas universidades? Respondendo, afirma que são jovens classe média e brancos. Irão trabalhar onde? Albert Einstein ou uma Ong? Quando vão para o 3° Setor, se decepcionam com a remuneração.

Karinna Forlenza entende que o jovem precisa se aperceber do seu potencial. O 3° Setor é um celeiro de oportunidades, porém, o jovem necessita realizar uma análise prévia entre "vantagens" oferecidas e suas expectativas. Precisa entender também que se trata de outro mundo, com objetivos diferentes e muito próprios e que exige um aprendizado longo. Encerrou dizendo que certos movimentos podem servir de modelo e escola, citando as instituições religiosas, como exemplos.

Maria do Carmo pergunta: qual deve ser a formação do jovem para atuar no 3° Setor? De toda forma, o jovem interessado no 3° Setor deve conhecer o cenário onde está inserida a organização que vai atuar, a fim de melhor conhecer o seu papel.

Ismael Rocha acha que o jovem não pode desempenhar somente um papel "tarefeiro", pois assim ele não conseguirá entender o papel político-institucional que a instituição tem. A lógica do 3° Setor é diferente, o jovem precisa perceber isso.

Reiterando, Alecsandro Souza acha que há duas maneiras para o jovem participar do 3° Setor. Uma é oferecendo produtos e outra é atuando a partir da sua universidade, oferecendo apoio técnico.

Ismael Rocha entende que a universidade tem um papel transformador, podendo e devendo orientar o seu aluno quanto a questões sociais que envolvem o CD pirata, a camiseta chinesa, etc.

Walter Barelli pede o posicionamento de todos sobre "quem é o estudante para o 3° Setor".

Segundo Ismael Rocha, o estudante para o 3° Setor deve:

  • Entender a lógica do 3° Setor.
  • Não pode ter uma visão linear.
  • Aprender a trabalhar com pouco e realizar muito.
  • Ser criativo.
  • Empreendedor.
  • Ter experiência no 3° Setor, não como alternativa.

Já Simone Tavit acha que para o 3° Setor avançar profissionalmente deve sempre contratar o melhor.

Karinna Forlenza sugere que as instituições em geral, que atuam em comunidades específicas, devem aproveitar pessoas das próprias comunidades.

Maria do Carmo coloca 5 pontos para o estudante atuar no 3° Setor:

  • Respeito pela cultura e pelo valor do outro.
  • Capacidade de interação.
  • Olhar o outro como diferente.
  • Saber trabalhar em equipe.
  • Preconceito, não!

Daniel Gonçalves compreende que o jovem deve saber como lidar com o setor público e saber os caminhos da interação com os outros setores.

Alecsandro Souza relaciona os seguintes pontos:

  • Domínio técnico de sua área de formação.
  • Conhecer as metodologias para elaboração de projetos.
  • Entender a realidade sócio-econômica do país.
  • Entender direitos e deveres básicos.
  • Saber fazer gestão de recursos.
  • Saber trabalhar com cenários incertos.
  • Saber trabalhar em equipe.
  • Possuir habilidade de articulação.
  • Saber que irá trabalhar na transformação de vidas.

Encerrando sua participação, Alberto Pinto relacionou que o jovem deve saber trabalhar com a diversidade cultural e racial e saber trabalhar com poucos recursos.

Por fim, Nadja Faraone relacionou que o jovem deve saber trabalhar com a discriminação lingüística.


Instituto Via de Acesso, 22/06/2006.


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