Walter Barelli - economista e professor

Nanotecnologia

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Com o apoio institucional do Sebrae/SP e sob a coordenação geral do deputado, ex-ministro do Trabalho e conselheiro do Instituto Via de Acesso, Walter Barelli, foi realizada no dia 31/10, na sede do Instituto, a 9ª mesa-redonda discutindo o tema "Educação, Trabalho e Empreendedorismo para o estudante no setor da Nanotecnologia".

A mesa-redonda contou com a participação do professor João Antonio Zuffo do Laboratory Integrated Systems e da Escola Politécnica da USP; Ethevaldo Siqueira, editor de TI do jornal O Estado de S. Paulo; Dimas Moura, executivo de Marketing e Educacional da HP para a América Latina; professor Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor Científico da Fapesp; Alecsandro Araújo de Souza, executivo da Unidade de Orientação Empresarial do Sebrae e Ruy Leal, superintendente geral do Instituto Via de Acesso.

Walter Barelli apresentou um apanhado geral sobre as dificuldades de aproveitamento dos estudantes e recém-formados pelo mercado de trabalho, os objetivos da realização, pelo Instituto Via de Acesso, dessa série de 11 mesas-redondas e a verificação das oportunidades que o setor da Nanotecnologia irá oferecer. Perguntou: como devemos olhar o setor e para suas atuais e futuras oportunidades?

João Antonio Zuffo, coordenador geral do Laboratório de Sistemas Integrados da USP, iniciou a sua primeira intervenção dizendo que as profissões não serão mais estanques. As possibilidades para a Nanotecnologia serão assim, ou seja, poderão estar nas mais diversas áreas da produção humana. Acredita que ainda será necessário criar muito mais conteúdo e, para isso, fundamental mais software específico nesse campo.

Ethevaldo Siqueira, editor de TI do Estadão, entende que o mundo é multidisciplinar e que o leque de possibilidades para Nanotecnologia está aberto. Como exemplo citou o jornalismo, que necessitará especializar-se em Nanotecnologia se o profissional quiser atuar na área, como comunicador do assunto. Disse que o jornalista é preparado para ser empregado e não empreendedor. Para ele a Nanotecnologia é uma área muito nova ainda, pois há 10 anos os cientistas a consideravam ficção. Acredita que em 10 ou 20 anos haverá uma explosão de produtos em Nanotecnologia.

Dimas Moura, responsável executivo de marketing para a América Latina da HP, disse que as escolas só ensinam a fazer. Não ensinam a pensar, criar e empreender. A HP nos Estados Unidos investe nos projetos de desenvolvimento em Nanotecnologia. Entre 2003 e 2004, o Governo Americano passou a considerar em seu Orçamento investimentos para o setor de Nanotecnologia, o que revela a importância dada, como também a efetiva participação desse governo no desenvolvimento da tecnologia.

Alecsandro Souza, da Unidade de Orientação Empresarial do Sebrae, considera que esse tema é um desafio para o Sebrae. Para ele "as discussões desta mesa-redonda poderão ser um norteador para o Sebrae quanto a eventual implementação de incubadoras, auxiliando empresários ou empreendedores que estejam olhando para a Nanotecnologia como um futuro campo de negócios".

Em nova intervenção, Walter Barelli perguntou: "Quais as oportunidades que podem ser geradas pela Nanotecnologia e onde o universitário poderá participar, como trabalhador ou como empreendedor?".

Professor Zuffo informou que existem dois tipos de Nanotecnologia:

a) O Top to Down, do "tamanho" de 65 nanômetros, já se apresenta em escala industrial, tecnologia encontrada em microprocessadores, por exemplo. Nessa tecnologia, a Intel, em Montesinos/USA, está finalizando o desenvolvimento de tecnologia para a implantação de 2 microprocessadores em um único equipamento PC. Prevê-se para logo, por meio dessa tecnologia, a criação de chips com capacidade para 1 trilhão de "pits", ou seja, com 1 terabyte.

b) O Down to Top, não terá significado industrial antes de 2020, prevê.

Acredita que a microeletrônica evolui rapidamente, significando grandes possibilidades e também resultados práticos em termos de aplicação e retorno financeiro. Permeará, ou seja, terá aplicabilidade em diversos setores de produção, como a agricultura, por exemplo. Concluiu, dizendo que o Brasil não precisa desenvolver microeletrônica de ponta, pois crê que as possibilidades para os estudantes serão maiores na microeletrônica já desenvolvida, já que se encontrará em quase tudo.

Carlos Brito Cruz, diretor científico da Fapesp, disse que a Fapesp continuará a financiar projetos de pesquisa em Nanotecnologia. Atualmente, financia 20 milhões de reais por ano nesses projetos. Adiantou que a Nanotecnologia atinge várias áreas de aplicabilidade. Deixa de ser promessa para ser realidade em diversos produtos. Lembrou a aplicação que a Nanotecnologia é encontrada em produtos da L´Oreal, em tecidos que possuem películas que rejeitam água, sujeira, manchas, etc. A Nanotecnologia é "pervasivo", ou seja, penetra em tudo. Mais da metade das pesquisas ocorre no Estado de São Paulo. Citou um caso da Unicamp, onde um professor de química que desenvolveu uma nano partícula de pigmento de tinta branca, resistente às intempéries do tempo. A Bunge foi licenciada a utilizar a tecnologia e só em royalties no primeiro ano estima-se receber cerca de 1 milhão de dólares. A divisão dos royalties ocorrerá na base de 1/3 para cada uma das partes, ou seja, 33% ao químico; 33% à faculdade e 33% para a Unicamp. Entretanto, ressalta, o cientista entende de ciências. Não sabe nada sobre negócios. Não é empreendedor. A associação entre cientista e empreendedor-financiador é o ideal, pois põe rédeas na imaginação do cientista, deixando o desenvolvimento das idéias mais pragmático e disciplinado. Esse tipo de desenvolvimento necessita de gente com visão e experiência que saiba transformar idéias em negócios.

Já Alecsandro Souza entende que o custo da entrada do jovem em projetos empreendedores em tecnologia é grande, o que poderá inviabilizar a sua entrada nesse campo. A incubadora é um bom caminho para o jovem iniciar algo. O jovem, entretanto, deve pensar em coletividade. Sozinho ele não consegue.

Professor Zuffo considera que seria necessário um estímulo às pequenas e médias empresas, o que daria aos jovens mais oportunidades. O estudante se movimenta baseado em exemplos. Temos poucos exemplos no Brasil e falamos muito pouco dos casos existentes. É preciso conectar as universidades às empresas-exemplos. Citou a AEGIS, de Wanderley Manzanno, que em Pirituba desenvolve um interessante projeto em Nanotecnologia. Mas, poucos sabem disso.

Dimas Moura acredita que a capacitação do jovem em inglês é condição básica para sermos um exportador de tecnologia. Só 3% da população falam inglês no Brasil. O mundo desenvolvido se comunica em inglês.

Professor Carlos Brito falou que em algumas universidades o jovem é bem preparado e tem menos concorrência. Disse que na Fapesp há uma linha de recursos, de até 500 mil reais por projeto, chamada de PIPE - Pesquisa Inovadora em Pequenas Empresas, que são liberados segundo o seguinte critério:

  • Tem que ser pequena empresa.
  • Ser uma novidade tecnológica.
  • Ter viabilidade de negócio.
  • E possuir menos de 100 empregados.

Ethevaldo Siqueira adiantou que o jovem gosta de futurologia. Disse que é importante apresentar ao jovem as possibilidades em Nanotecnologia, mas, com realismo, fundamentando essas possibilidades. E como se faz isso? Com seminários nas universidades e também tirando o caráter de ficção e deixando com o sentido de algo realizável.

Zuffo informou que existe um grande mercado de trabalho para os jovens junto a projetos de chips, tanto em micro tecnologia como em nanotecnologia. Citou a Motorola no Brasil, como um exemplo de empresa que faz algo nesse campo. Citou como possuidor de grandes possibilidades a fusão da biotecnologia com a nanotecnologia, principalmente no campo da Genética.

Dimas Moura disse que é necessário que o jovem possua uma atitude ganhadora, pois é o que importa para a empresa. Além disso é preciso que o jovem esteja disponível para a mobilidade, buscando a sua oportunidade onde ela, geograficamente, estiver. Ter em mente que a formação é importante, mas não é tudo, pois por si só não bastará na busca por uma oportunidade profissional. Finalizou, dizendo que é preciso aprender o "core" da língua.

Carlos Brito acredita que as chances para os jovens aumentam se tiver "experiência" internacional, tendo vivido e aprendido culturas externas. Além disso, para atuar nesse setor o estudante deve possuir um "core" de conhecimentos essenciais: matemática avançada, química, física e biologia, pois necessitará saber transitar de uma área para outra.

Alecsandro Souza disse que a carreira do jovem depende dele, como é o caso de qualquer um, experiente ou não. Ele precisa entender e conhecer quais são as oportunidades em nanotecnologia. Precisa compreender o ambiente onde pretende atuar. Quais são as brechas; onde pode apresentar melhores resultados; estabelecer um bom networking e, se for empreender, buscar recursos ou bolsas na Fapesp ou CNPQ, em organismos financiadores.

Professor João Zuffo encerrou a sua participação dizendo que o mercado das telecomunicações vem crescendo na média de 75% ao ano e o da microeletrônica entre 45% e 50%. Ambos os setores são e serão mais ainda grandes absorvedores de produtos oriundos da nanotecnologia. Por fim, disse que o Lap Top será, em curto espaço de tempo, instrumento indispensável para as pessoas atuarem profissionalmente.

Reforço de todos da mesa: deve-se ter claro que o que foi falado deverá perder muito valor nos próximos 5 anos, pois tudo está evoluindo com espantosa velocidade no setor da Nanotecnologia. Trata-se de um setor com enormes possibilidades para o jovem, mas com enormes desafios também.

Case de utilização da nanotecnologia em produtos

Indústria

Companhia licencia pigmento criado pela Unicamp

Bunge entra no mercado de insumos para tintas
Fonte: Ricardo Cesar de São Paulo

Uma tecnologia desenvolvida no Instituto de Química da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) está levando a Bunge, conglomerado com forte atuação na área de agronegócios, a entrar no mercado de insumos para tintas. A empresa fechou acordo de licenciamento com a universidade para produzir e vender o Biphor, um pigmento branco criado com recursos de nanotecnologia, uma técnica que envolve a transformação das partículas microscópicas que compõem os materiais.

O Biphor tem um enorme potencial de vendas por oferecer uma alternativa ao dióxido de titânio, até agora o único pigmento branco disponível para servir de base à fabricação de tintas. Responsável por 40% a 50% do preço final da tinta, a substância é fornecida no Brasil pela Lyondell e pela Dupont, que têm fábricas na Bahia e em Minas Gerais, respectivamente. No mundo, o dióxido de titânio representa um mercado de US$ 11 bilhões, com consumo de 5 milhões de toneladas por ano.

Baseado em fosfato de alumínio, o Biphor é produzido com matérias-primas empregadas na produção de fertilizantes - o que explica a aproximação entre a Bunge, que atua nesse setor, e a equipe do professor Fernando Galembeck, responsável pelo projeto. O produto promete diversas vantagens: além de não ser tóxico e não gerar resíduos que agridem o meio ambiente, o processo de fabricação é mais barato. O pigmento também influencia as propriedades da tinta, conferindo resistência mecânica e melhor cobertura.

A idéia inicial é misturar a novidade ao dióxido de titânio em partes iguais. Segundo Gilmar de Oliveira Pinheiro, gerente da Bunge, a adição de 50% de Biphor à fórmula das tintas proporciona uma redução de custos de 10% a 20% no produto final. "Isso é importante em um setor que trabalha com margens apertadas", diz. Já há pesquisas em andamento para que o Biphor substitua integralmente o dióxido de titânio, mas ainda sem resultados conclusivos.

No fim de outubro, a Bunge inaugurou no interior de São Paulo uma fábrica piloto com capacidade de produzir mil toneladas por ano de Biphor. O pigmento está sendo distribuído a potenciais clientes no Brasil e no exterior para avaliação.

Se tudo correr conforme o previsto, a empresa construirá uma fábrica com capacidade comercial até 2007, provavelmente anexa a uma das unidades de fertilizantes. Embora ainda não exista uma estimativa dos custos do projeto, Pinheiro acredita que o montante deve chegar a "algumas dezenas de milhões de reais".

Apesar disso, voltar a atuar diretamente no mercado de tintas - a Bunge fundou a Coral em 1954 e se desfez do negócio em 1996, durante uma reestruturação - está descartado. "O objetivo é apenas fornecer o insumo, porque dominamos a cadeia produtiva dos ácidos sulfúrico e fosfórico, as matérias-primas empregadas no Biphor", diz Adalgiso Telles, diretor de comunicação da Bunge no país.

A novidade já despertou interesse das fabricantes de tintas - os grandes clientes potenciais da empreitada da Bunge. Luis Mota, diretor-técnico da Sherwin-Williams, terceira maior empresa do setor no Brasil e líder de mercado nos Estados Unidos, acredita que o Biphor terá grande impacto na produção.

O executivo acompanhou as fases finais da criação do pigmento, na Unicamp. "Nossa expectativa é muito grande. Os testes mostram que o material realmente tem propriedades interessantes."

Já Dilson Ferreira, presidente da Associação Brasileira dos Fabricantes de Tintas (Abrafati), prefere ser mais cauteloso. "A presença de uma nova tecnologia é muito bem-vinda, mas ainda é cedo para avaliar seu impacto na indústria."

A Bunge apóia o desenvolvimento do Biphor desde 1995. No total, a empresa aportou cerca de US$ 1 milhão nos esforços de pesquisa - dos quais R$ 600 mil foram diretamente para a Unicamp.

O desenvolvimento do produto começou no fim dos anos 80, quando o professor Galembeck participava de pesquisas sobre fosfatos no Instituto de Química da Unicamp. Acidentalmente, os cientistas descobriram que era possível criar espumas de células fechadas - uma propriedade rara em compostos inorgânicos e requisito para pigmentos impermeáveis de tinta - com polifosfato de ferro. O resultado não era esperado e causou surpresa na equipe. Mas a substância resultante era escura, o que impedia seu uso na maioria das tintas.

Em seguida, os cientistas começaram a testar os procedimentos com o polifosfato de alumínio, que poderia gerar um pigmento branco com as propriedades desejadas. No começo dos anos 90, a equipe de Galembeck foi bem-sucedida. A partir daí, começou a criar um processo de fabricação.

Em 1995, a Serrana - uma empresa da Bunge mais tarde integrada à divisão de fertilizantes - começou a investir no projeto. Em 2004, a Bunge decidiu acelerar o desenvolvimento do Biphor. Pelo acordo de licenciamento, a Unicamp receberá 1,5% do faturamento bruto que a empresa obtiver com o produto, além de um pagamento inicial de R$ 140 mil.

Galembeck, de 62 anos, foi um dos responsáveis por desenvolver os cabos de alta tensão do Eurotúnel, que liga a Inglaterra à França. Em suas aulas, o professor sempre fala da importância de estar atento ao acaso - os resultados não esperados das pesquisas, que levaram ao Biphor.

Com a expectativa de receber um terço do repasse dos royalties da Bunge - uma quantia que deve ser "substancial" - fica difícil discordar do pesquisador. "Com essa descoberta, fico em paz com minha consciência. Cumpri bem o que poderia ter feito."


Instituto Via de Acesso, 17/11/2005.


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