Walter Barelli - economista e professor

Setor da Cultura

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Em 29 de setembro, sob o apoio institucional do Sebrae/SP, foi realizada na sede do Instituto Via de Acesso a 8ª mesa-redonda sobre o tema "Educação, Trabalho e Empreendedorismo para o Jovem Estudante Brasileiro", discutindo as oportunidades, exigências, necessidades para os estudantes no setor da Cultura.

Contando com a coordenação geral do ex-ministro do Trabalho e conselheiro do Instituto Via de Acesso, Walter Barelli, o trabalho contou com a moderação do professor Alfredo Passos e com a participação de Jorge Cunha Lima, presidente do Conselho da TV Cultura; Vera Achatkin, do departamento do curso Artes do Corpo da Puc/SP e do Centro Cultural S. Paulo; Ivone Avelino, professora do curso de História da Puc/SP; Marília Pini, chefe do departamento de Música da FIAM/FAAM; Eduardo Saron, superintendente do Instituto Cultural Itaú; Artur Scatolini Menten, professor da Unip/advogado da produtora cultural 3D3; Otávio Ribeiro, produtor cultural da 3D3; Lígia Araújo, gerente de marketing da rádio Transamérica e Ruy Leal, superintendente geral do Instituto Via de Acesso.

Alfredo Passos, moderador dos trabalhos, fez uma rápida apresentação da situação atual do jovem no mercado de trabalho. Resumidamente, informou que há alguns anos a situação do aproveitamento do jovem no mercado de trabalho fica cada vez mais difícil. Até os jovens ricos estão enfrentando problemas. Cerca de 20% deles não encontram emprego ou trabalho. Perguntou: há trabalho na Cultura para eles?

A professora Marília Pini, da FIAM/FAAM, iniciou dizendo que a Música não é opção para as camadas mais abastadas. Música exige, normalmente, formação longa e dedicada. "O segmento da sociedade mais envolvido com a música é a classe média, bem média". O músico interessado inicia sua relação com a música muito cedo, bem antes da universidade. Cerca de 75% dos universitários músicos já são atuantes, em grupos amadores, professores, orquestras profissionais, etc.

Já a professora Vera Achatkin, da Puc/SP, para responder à pergunta, dividiu o setor em duas categorias. Segundo ela, o setor técnico da Cultura, composto de cenógrafos, operadores de luz, som, aderecistas, etc, é o pessoal que ganha e que possui mais trabalho. No caso dos "criadores", que são os "artistas", acabam por ficar em último na fila para receber. São os que possuem amor ao projeto, e preferem pagar as contas e acabam, muitas vezes, por não ver o dinheiro. Adiantou, entretanto, que tem aumentado o trabalho para os criadores, porém, ainda é mal remunerado. Organizações como o Itaú, Sesc, Casas de Cultura, etc, têm absorvido mais, temporariamente, mas não se trata, portanto, de um trabalho mais fixo. Finalizou, dizendo que os profissionais de artes cênicas estão tendo mais trabalho nas produtoras de cinema, agências de publicidade e centros de cultura.

Otávio Ribeiro, da produtora cultural 3D3, iniciou dizendo que a produção cultural brasileira funciona hoje por conta dos incentivos fiscais. Essa é a realidade. A indústria de Entretenimento, tem aberto algumas oportunidades para a produção eletrônica, produção "não linear", como o caso dos músicos, que podem trabalhar em produtos de som em publicidade. O espaço é pequeno, mas existem várias funções a serem cumpridas. Os produtores têm uma situação variável. "É comum o produtor trabalhar 6 meses e, algumas vezes, ficar 6 meses parado, porque a produção que ele apostou não obteve patrocínio", concluiu.

Jorge Cunha Lima, presidente do Conselho da TV Cultura, informou que a produção cultural + entretenimento (-publicidade) é responsável por 7% do PIB. Não há projeto nacional de cultura pública no Brasil. Todos os governos desprezaram a cultura como fonte de desenvolvimento. Sugeriu uma espécie de "plano do mercado" para se entender melhor o que ocorre no Brasil junto ao setor cultural. Disse que o mercado privilegia os produtos culturais consagrados. A atividade cultural depende do ritmo da economia. Se a economia estiver bem, há mais empregos. Trabalha-se por projetos, ou seja, no meio cultural é comum oferecer projetos para buscar patrocínios. Os recursos são raros e difíceis. A alternativa para isso, segundo afirmou, é a criação de uma lei de incentivo fiscal. Hoje a sociedade é que paga a conta cultural brasileira. A instituição pública não paga coisa alguma. A doação espontânea da pessoa física não existe no Brasil. A única de que tem notícia foi uma doação feita pela família Segal ao Masp. Quem doa, o faz pelas vantagens que a lei vier a proporcionar. Na TV a situação é muito mais grave. A produção independente, que proporciona trabalho a muita gente, é uma prática comum no mundo, porém, não ocorre no Brasil. Aqui, 95% da programação é produzida pelas TVs. Como resultado, os artistas consagrados ganham muito e os não consagrados ganham muito pouco. As TVs controlam o dinheiro. Fez um comparativo: no Brasil, as crianças passam, em média, 4,5 horas na frente da TV e cerca de 3 horas na escola. Na 4ª série, são, em boa parte, analfabetos.

Eduardo Saron, superintendente do Instituto Cultural Itaú, iniciou dizendo uma afirmação de Weber - "A força de um país não está na sua pujança econômica, mas sim na sua pujança cultural". Temos que entender a identidade cultural do Brasil. Hoje, temos cerca de 1800 mil jovens entrando no mercado de trabalho e cerca de 1100 mil postos de trabalho sendo criados. Como ajustar essa equação (?), perguntou. Um levantamento feito pelo Itaú apresenta que o conjunto das leis de incentivo propicia recursos da ordem de 2,5 bilhões de reais, com as leis municipais exercendo força maior do que as estaduais. As leis profissionalizaram o mercado cultural. É exigido dos produtores culturais que façam a formulação do projeto, das idéias e que tenham capacidade de negociação. A Petrobrás investe 77 milhões de reais em cultura; a BR Distribuidora atua mais no áudio-visual. O Itaú usa a Lei Rouanet e aplica na cultura 28 milhões de reais ao ano. Afirmou também que não tem, mas pode ter emprego para jovem no setor da Cultura. Depende da democratização do acesso à tecnologia (celular, TV e rádio digital; internet e convergência das mídias) e a profissionalização do 3° Setor, utilizando a cultura como via de inclusão. Como exemplo, citou o exemplo da Avenida Paulista, que criou um movimento cultural, trazendo 22 ou 23 centros culturais para a avenida. Toda essa movimentação só ocorre com a profissionalização. Trata-se de uma oportunidade para o jovem, mas para o jovem muito bem qualificado.

A professora Ivone Avelino disse que até pouco tempo atrás, a perspectiva para o curso de História se resumia à sala de aula. Agora as possibilidades oferecidas pelo curso na Puc/SP são muito mais abrangentes, contemplando a história, o patrimônio histórico e a cultura. Os alunos não querem mais a sala de aula. Querem atuar em outras atividades, tendo como possibilidades a atuação nos centros culturais de empresas, na "Memória" das empresas, em museus (áreas de patrimônio), arquivistas, centro de documentação e núcleos de pesquisas.

Arthur Menten dividiu os profissionais do setor em 3 categorias: 1) os técnicos; 2) os criadores, e 3) os burocratas da cultura. Concentrando-se nos burocratas, explicou que para ter acesso às leis de patrocínio e, portanto, aos patrocínios, precisa ter empresa e, aí, precisará dos burocratas, que irão elaborar os contratos, cuidar do operacional, etc.

Lígia Araújo, gerente de marketing da rádio Transamérica, disse que as rádios e TVs buscam jovens de talento. A rádio Transamérica tem cerca de 20 a 30 estagiários visando prepará-los melhor para o futuro da rádio. De maneira geral, são mal preparados. O treinamento é necessário e o rodízio também, para eles ficarem mais bem preparados. A criatividade voltada para a inovação é necessária e valorizada, mas, em geral, pouco encontrada junto aos jovens. Os estudantes são retraídos, tímidos, inibidos e precisam aprender a focar o resultado. Isso a escola não prepara. A rádio Digital irá dar muitas oportunidades a jovens preparados, mas, irá demorar ainda de 3 a 5 anos para chegar ao consumidor. Acredita que a Lei Rouanet pode servir de ponto de encontro para que os jovens possam apresentar seus projetos.

Alfredo Passos, na segunda parte dos trabalhos, solicitou a todos que apresentassem as possibilidades de trabalho e de empreendedorismo para os jovens, hoje.

Marília Pini, apresentou um pequeno quadro de possibilidades de aproveitamento profissional do músico. Segundo ela enxerga, o músico pode ser aproveitado:

  • Na cadeia de produção musical.
  • Nas igrejas.
  • Nos projetos tipo CEU, Guris, etc.
  • Nas escolas, principalmente nas de Ensino Fundamental e de Ensino Médio, com parte da formação humanística.
  • Em projetos sociais, promovidos pelo governo ou por instituições/organizações.
  • Em grandes eventos, promoções culturais ou shows.
  • Em produções musicais para publicidade ou canais de comunicação.

Para Eduardo Saron o aproveitamento do jovem no meio cultural está vinculado ao seu grau de conhecimento humanístico e cultural. O jovem assim encontra oportunidades:

  • Nas redes de rádio e TV.
  • No 3º Setor.
  • Nas periferias das grandes cidades.

Já Ivone Avelino acredita que ao se levar o jovem a um projeto ele responde prontamente. Acha que a busca de oportunidades profissionais ao jovem poderá ficar mais forte se:

  • Organizar parcerias culturais com TVs, rádios, jornais e outros bons veículos de comunicação, que apóiem e divulguem as suas iniciativas e atividades culturais.
  • Envolver os jovens em encontros com gestores e promotores culturais.

Vera Achatkin vê o aproveitamento do jovem dentro do seguinte cenário:

  • O jovem deve ter melhor conhecimento, domínio da burocracia da cultura.
  • Entender e utilizar, corretamente, a arte como meio de assistencialismo nas regiões ou bolsões carentes.
  • Entender as regiões carentes e seus mecanismos de sucesso para projetos culturais, como, por exemplo, ter sempre um interlocutor local para a realização desses projetos ou iniciativas culturais.

Jorge Cunha Lima apresentou um outro caminho para o melhor aproveitamento profissional do jovem no setor Cultural. Para ele, as universidades e escolas devem preparar melhor o jovem, seu aluno, para o novo mundo do trabalho. Novos paradigmas do trabalho aparecem freqüentemente e o jovem não conhece. A escola precisa ser um campus cultural, ativando corriqueira e internamente atividades de:

  • Música
  • Teatro e
  • Poesia

Além disso, deve alertar e incentivar o seu aluno a usufruir as possibilidades de formação complementar que uma cidade como São Paulo oferece. Por fim, acredita que a escola deva despertar em seus alunos outros "amores".

Otávio Ribeiro define como necessário ao jovem na sua busca de oportunidades profissionais no setor, o seguinte:

  • O jovem deve consumir a diversidade para multiplicar as possibilidades.
  • Consumir, exemplificou, o filme "Dois filhos de Francisco" tanto quanto consumir Sartre.
  • Enxergar-se como parte de uma cadeia.
  • Aprender a criar espaços (street art, por exemplo).
  • Participar do coletivo, entendendo que não se é nada sozinho.
  • O trabalho no meio cultural também se consegue na base da "guerrilha".

Lígia Araújo entende que para o jovem é necessário antes:

  • Que saia da sua costumeira zona de conforto. Deve-se trabalhar o seu motivacional.
  • O jovem deve ser mais decidido e motivado, sabendo que nada virá tão fácil e as dificuldades e tombos serão muitos.

Instituto Via de Acesso, 12/10/2005.


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