Walter Barelli - economista e professor

Setor de Alimentos

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Com o patrocínio do Sebrae/SP, em 5 de setembro, sob a coordenação do ex-ministro do Trabalho e conselheiro do Instituto Via de Acesso, Walter Barelli, foi realizada mais uma mesa-redonda, a 7ª, sobre o tema "Educação, Trabalho e Empreendedorismo para o estudante no setor de Alimentos". A moderação ficou sob a responsabilidade do professor Alfredo Passos, da pós-graduação da ESPM.

Participaram do trabalho, Maria Estela Cardeal, representando a Nestlé; Flávio Ponzio, da Perdigão; Reinaldo Ramos, da Sara Lee Cafés; Rosana Toledo e Maria Cristina Menezes, da Gastronomia da Hotec; Marcello Nitz, de Engenharia de Alimentos do Instituto Mauá de Tecnologia; Alecsandro Araújo de Souza, do Sebrae e Ruy leal, do Instituto Via de Acesso.

O prof. Alfredo Passos fez uma apresentação geral do cenário do aproveitamento dos estudantes pelo mercado de trabalho, os objetivos do trabalho a ser iniciado e quais os resultados eram esperados. Ao final, fez a seguinte indagação: Quais são as oportunidades que cada um estava vendo para os estudantes?

O professor Marcello Nitz, do curso de Engenharia de Alimentos da Mauá, adiantou que há uma grande tendência de aproveitamento dos jovens na área comercial das empresas e indústrias do setor de Alimentos. Isso tem feito com que a escola considere necessária a revisão do curso como um todo e da grade curricular, em particular.

Estela Cardeal, ex-gerente de RH da Nestlé e consultora da Companhia de RH, disse que não é só na área comercial e nem uma situação própria de Alimentos. Há uma grande tendência de aproveitamento dos jovens em áreas e funções diferentes do tradicional, mas, as empresas precisam conhecer melhor como aproveitar esses jovens pelas suas mais fortes competências ou pontos fortes. Entende que a somatória das competências, habilidades e atitude é que vai determinar a trajetória de sucesso de um jovem estudante. Concluiu, dizendo que falta às empresas conhecer em que campos ou funções podem utilizar, por exemplo, os estudantes oriundos do curso de gastronomia. As escolas com esse curso, precisam divulgar mais e melhor às empresas o que vem a ser "gastronomia" e qual o seu melhor aproveitamento. Ela acha que na Nestlé pode haver um aproveitamento de estudantes desse curso para a linha de produtos de molhos prontos, por exemplo.

A professora Maria Cristina Menezes, Mestre e coordenadora técnica do curso de Gastronomia da Hotec, apresentou um interessante quadro do jovem que busca estudar Gastronomia. Informou que o jovem entra no curso buscando a competência técnica para exercer a profissão. Depois, ele vê outras áreas onde pode atuar, como finanças, estocagem e marketing. O sonho da maioria dos estudantes é abrir o próprio negócio. Por ser um curso, essencialmente, técnico, a competência técnica só se adquire na atuação e, no campo, acabam por enfrentar na busca de oportunidades de trabalho, os talentosos com pouca escolaridade e titulação, que são, no geral, os nordestinos que atuam chefiando as cozinhas. Atualmente, as oportunidades ocorrem em operações, ou seja, nas cozinhas. Boa parte dos estudantes não quer enfrentar isso, pois se considera barra pesada atuar na cozinha. Não tem sábado, domingo e feriado. Os salários ainda são baixos e o ambiente é insalubre, muito quente e de ar viciado. Quando formam, na maioria, os estudantes ficam frustrados, pois vão trabalhar em restaurantes comerciais, o que consideram muito pouco, já que estavam ávidos por trabalhar em restaurantes de alto nível ou hotel 5 estrelas. Alguns buscam alternativas como fazer cursos de somalier para trabalhos mais especializados ou optam pelo próprio negócio, o próprio restaurante e não estão preparados para a gestão do seu negócio.

Alecsandro de Souza, do setor de Orientação Empresarial do Sebrae de S. Paulo, acredita que o estudante precisa passar a ver o seu futuro setor de atuação como possibilidades de negócios. E se preparar para isso. Se ele busca emprego a sua formação acadêmica não é mais suficiente. Se ele, entretanto, entende o negócio, fica mais claro onde poderá atuar melhor, enxerga as oportunidades. Muitos querem abrir o seu próprio negócio, quando não encontram oportunidades como empregados, mas, estão desinformados para isso. Não lêem jornal, não se ligam ao que acontece no Brasil e no mundo. Fica quase impossível ter sucesso assim.

Reinaldo Ramos, jornalista e consultor de comunicação da Sara Lee Cafés, acredita que a formação precária dos estudantes, atualmente, a maioria não tem como participar das melhores oportunidades oferecidas pelo mercado de trabalho. No seu ponto de vista, falta ao estudante aquilo que ele chama de "antropologia corporativa", ou seja, aprender a olhar e entender o "outro". Segundo ele, há um "gap" na formação dada pela escola ao estudante. O estudante, o trainee ou o recém-formado entram na empresa sem entender ou se preocupar com a cultura da empresa. O jovem não tem a noção crítica do outro, não possui a consciência do que é um escritório ou de uma fábrica. Assim, ele terá muita dificuldade para identificar as oportunidades, onde poderá atuar melhor ou que carreira seguir. Como exemplo, colocou a Sara Lee. Informou que a empresa atua em mais de 200 mercados, sendo, portanto, uma empresa global. Mas, afirmou, é também uma empresa local, pois, atua dentro da realidade local, respeitando a cultura local. Para ele, o universitário "ligado" tem muitas oportunidades na Sara Lee, porém, ele precisa ter visão da sua diversidade cultural, saber conhecer o outro e atuar de acordo com isso. Na Sara Lee o "saber local" é um saber importante. Quase estratégico. A produção e o marketing, por exemplo, consideram isso. Se não conhecer o gosto local, não produzem e não se comunicam, adequadamente.

Flávio Ponzio, gerente de Relações Humanas da Perdigão, informou que a empresa dá oportunidades para cerca de 600 estudantes para atuar como estagiários. Cerca de 30% são contratados após o período de estágio. Segundo o que adiantou Flávio Ponzio, a Perdigão está agora mirando para as oportunidades na área técnica, que são a grande maioria, o curso Ciências da Alimentação. Esse curso, enfatizou, é mais completo para a realidade da Perdigão, pois contempla, curricularmente, todas as fases da produção. O curso, que é oferecido pela USP/Luiz de Queirós, foi objeto, por parte da escola, de especial divulgação às empresas de alimentos, onde e quando foram apresentadas todas as suas possibilidades, muito mais amplas e adequadas ao momento empresarial. De toda maneira, de acordo com Ponzio, falta muito ainda no preparo dos estudantes às necessidades empresariais, bem como em relação à realidade do universo "empresa". Os estudantes chegam na empresa bem desconectados do seu cotidiano, faltando a eles, em sua grande maioria, habilidades e competências necessárias para se "movimentar", adequadamente, na realização de suas tarefas e atividades. Como exemplos, colocou que eles não sabem trabalhar em equipe e relacionar-se com profissionais de sua área e outros colaboradores.

Marcelo Nitz, em outra intervenção, acredita que o estágio na Mauá, "raramente é proveitoso para os alunos de Engenharia de Alimentos". Tem dúvida sobre a sobrevivência do curso nos moldes em que ele, atualmente, está organizado, curricularmente. Acredita também que realmente falta aos estudantes o conhecimento de determinadas habilidades e competências que o mercado de trabalho valoriza, como trabalho em equipe, relacionamento interpessoal, comunicação escrita, entre outras. Acha que esses conteúdos deveriam ser mais abordados pelas escolas, mas de maneira transversal, e não como conteúdo obrigatório da grade curricular.

Rosana Toledo, da Hotec - Gastronomia, falou que à realidade do curso de gastronomia deve ser acrescida a carência existente de docentes preparados para o curso. Professores capacitados e graduados, dentro das exigências do MEC, são muito poucos. Como ter um profissional desses, graduado, que queira ir para a cozinha em suas aulas práticas. Por isso, ela acha que a docência é uma área com grandes oportunidades ainda.

Na segunda parte do trabalho, foi apresentada a seguinte questão: "Emprego e empreendedorismo: onde estão as oportunidades?"

Alecsandro disse que há um impasse no mercado de trabalho. Definitivamente, não há oportunidades de trabalho para todos. Por certo, na grande empresa não há. Tem a pequena e média empresa, com "grandes" e mais disponíveis campos de absorção profissional. O estudante precisa acordar para essa realidade. Precisa encarar como também se realizar, profissionalmente, atuando em pequenas e médias empresas. Só assim ele (estudante) irá dar certo. Há muito mais oportunidades, quer como empregado ou como empreendedor, junto às pequenas e médias empresas. Mas, o estudante necessita estar preparado para a realidade diferente desse mundo, sabendo que lá irá atuar nas mais diversas frentes, desenvolvendo atividades além de sua habilitação formal. Enxergar o mundo empresarial como um palco cheio de oportunidades e necessidades, mas, cheio também de exigências.

Flávio Ponzio confirmou que 60% das oportunidades na Perdigão se encontram na área de tecnologia de alimentos. Engenharia de Alimentos e Engenharia Química são os cursos, ainda, com as maiores oportunidades.

Reinaldo Ramos disse que a Sara Lee Cafés tem cerca de 1200 colaboradores em seus quadros. O aproveitamento de estagiários é bastante razoável ao final dos estágios. Estão revendo o programa e deverão aumentá-lo, No mundo, a Sara Lee possui um grande e muito bom programa de trainees.

Ao final, foi colocada na mesa a seguinte questão: o que a universidade não está formando?

Maria Cristina, Hotec, colocou 3 pontos:

  • Falta combater, fortemente, a alienação dos estudantes.
  • Passar, mais veementemente, o conceito "valor humano".
  • Discutir, crítica e politicamente, o que está ocorrendo no mundo e o que isso tem a ver com eles.

Flávio Ponzio disse que falta:

  • Valorizar a pessoa como ele é, sem preconceitos.
  • Preparar o estudante para aprender a ter foco no negócio.
  • O estudante tem que ser preparado para sair da escola consciente do que vai encontrar lá fora, de maneira que saia feliz, mas consciente.

Reinaldo Ramos enxerga que:

  • É preciso que o aluno aprenda a desfragmentar o seu conhecimento. Aprenda a reaprender e utilizar isso, pois o mundo está mudando muito rápido e nada é para sempre.
  • O aluno quer do professor a chave do mercado. Isso não existe. Não tem!

Marcelo Nitz entende que falta passar ao estudante:

  • Visão do mundo e visão de vida. A escola não tem conseguido passar para o seu estudante essa visão e isso ele só consegue "indo para a vida", pegar a mochila e sair para o mundo.

Estela Cardeal entende que falta nas escolas:

  • Passar aos estudantes o entendimento claro do uso da trilogia "conteúdo - processos - resultados".
  • Os estudantes precisam aprender a fazer a gestão de pessoas.

Instituto Via de Acesso, 12/09/2005.


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