Walter Barelli - economista e professor

Setor da Moda

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Com o apoio institucional do Sebrae/SP, o Instituto Via de Acesso realizou no dia 12 de agosto, em sua sede, a 6ª mesa-redonda sobre o tema Educação, Trabalho e Empreendedorismo para o Jovem Estudante Brasileiro, discutindo o Setor da Moda.

Estiveram presentes ao trabalho coordenado pelo conselheiro do Instituto e ex-ministro do Trabalho, Walter Barelli, prof. José Renato e profª Carla Marcondes do curso de Moda da Universidade Anhembi Morumbi, profª Raquel Valente e profª Sandra Martini do curso de Moda da Faculdade Santa Marcelina, Lucila Ciotti do Senac, Odair Tuono do Senai, Manfredo A. Paes do Sebrae, Carlos Pougy da Pougy Marketing Empresarial e Ruy Leal do Instituto Via de Acesso. A moderação esteve sob a responsabilidade dos profs Alfredo Passos e Eduardo Najjar.

Considerando-se que o setor da Moda representa cerca de 15% do PIB brasileiro e utiliza uma mão-de-obra intensa, com capital pequeno, foram discutidas as questões que permeiam o mundo real da moda, suas oportunidades, exigências e cultura empresarial.

Segundo José Renato, de uma mesa em casa pode-se atuar em confecção. Moda é um mercado marcado, em cerca de 90% dos casos, por micro e pequenas empresas, na grande maioria, familiares e informais. O setor under ware ou night ware (calcinhas e sutiãs), 70% das vendas são informais, feitas pelas sacoleiras.

Para as professoras Sandra Martini e Raquel Valente o marketing, leia-se profissionalismo, passa a fazer parte do cotidiano da Moda, mesmo que de maneira insipiente. Estão se abrindo oportunidades para o estudante universitário, ainda que poucas, pois a grande maioria das empresas apresenta uma cultura familiar e amadora. Entretanto, oportunidades para pesquisadores, analistas e gerentes de produtos estão aparecendo.

O estudante de Moda, de forma geral, está preparado. O empresário é que não está, pois, geralmente, costuma inovar muito pouco, preferindo copiar coleções ou modelos. O Sebrae poderia atuar mais no sentido de profissionalizar o setor e os micro-empresários.

A professora Lucila Ciotti, do Senac, afirma que é necessário fazer-se uma separação dos dois principais ambientes do setor. Moda caracteriza-se pelos ambientes "Estilo", mais fashion, onde a criação é a marca, mais valorizado e "Modelagem", mais fábrica, onde se executa a criação, menos valorizado.

Quem atua em Estilo, normalmente, tem o sonho do universitário, ou seja, sonha abrir o seu próprio negócio, e cerca de 60% trabalha assim. Já em Modelagem, 80% dos formados atuam na área, como empregados.

Mas o setor não é só isso. Há estudantes sendo preparados para atuar em Finalização. "Assessórios" , como mercado, é considerado um promissor portão de entrada para os estudantes. O setor Coureiro/Caça Jeans também pode ser bom absorvedor de mão-de-obra.

Moda é um setor, predominantemente, feminino. A mulher é a grande maioria, embora em algumas regiões ou cidades, o homem também tem uma atuação forte. A visão gay é considerada fundamental no setor.

O que se vê no setor é uma grande desorganização interna. Sobre o evento SP Fashion Week, boa parte dos estilistas só participa pois é patrocinada. Vivem com 1000 reais mensais, não mais do que isso. A maioria sabe criar, mas não sabe fazer dinheiro, não sabe ser empresário.

"Jóias", como outro ambiente do setor é a exceção. É mais organizado, profissionalizado, mas, por isso mesmo, o mais difícil de entrar.

Há no país 53 faculdades de Moda, com cerca de 4 delas mais atualizadas. A faculdade Santa Marcelina tem 18 anos de existência. As demais vieram depois. Entretanto, todas elas não dão uma visão de negócios para os alunos.

O prof. Odair Tuono começou a sua participação informando que o Senai tem uma longa história nos cursos técnicos "Vestuário" e "Gestão do processo produtivo" e há 5 anos está também realizando alguns cursos universitários., como realiza cursos de pós-graduação, sendo o curso "Gestão da Produção", um deles.

Como responsável pelo setor de estágios do Senai, acredita que ainda há uma mística em relação ao aproveitamento do universitário como estagiário pelas empresas do setor. É muito comum, afirma, que há a crença de que o estagiário irá tirar o emprego de alguém. Ensina-se pouco o empreendedorismo para os estudantes. Uma parceria com o Sebrae nesse sentido ajudaria muito.

Pela sua experiência, acredita que o "ambiente" Aviamentos é também um absorvedor de mão-de-obra preparada, principalmente em estamparia e tratamento do tecido.

Outra área para o aproveitamento do estudante de Moda é o atendimento comercial. É necessário, entretanto, que o estudante esteja preparado para o universo do produto e do mercado. São os futuros consultores de estilo.

A moda brasileira está ainda construindo a sua identidade na moda. Não há, de fato, por parte dos empresários do setor, salvo raras exceções, um conhecimento do mercado externo para saber exportar o produto certo para o mercado certo.

Conforme disse a professora Carla Marcondes da Universidade Anhembi Morumbi, áreas específicas do setor da Moda estão procurando ou oferecendo oportunidades para estudantes. A moda esportiva, bem como calçados, setor automobilístico (moda não é só vestuário) e restaurantes, com suas vitrines, procuram estudantes de Moda para atuar como estagiários e, posteriormente, como profissionais.

Já Carlos Pougy, da Pougy Marketing Empresarial disse que prefere considerar que a Lei da Oferta e da Procura deve ser revogada para valer a lei da Procura e da oferta. Diante dessa proposta, entende ele, a "procura", leia-se empresa, deve ser estimulada para que a "oferta", leia-se alunos possam ser aproveitados de maneira mais adequada.

Manfredo Paes entende que falta às escolas trabalhar fortemente o empreendedorismo em seus cursos de maneira a estimulá-los a serem empreendedores. O Sebrae pode ajudar, capacitando os estudantes para tanto. Propôs e ofereceu uma parceria entre as escolas e o Sebrae para desenvolverem uma série de atividades conjuntas visando preparar os estudantes para o empreendedorismo. Seriam realizadas palestras técnicas, atendimento coletivo, palestras virtuais e até montar um módulo de educação empreendedora.

Mas o que fazer pelos estudantes, hoje?

Os presentes pontuaram o seguinte:

  • Deve-se mostrar a realidade do mundo da Moda ao estudante.
  • Ética e outros conhecimentos administrativo/financeiros devem ser agregados.
  • Apresentar mais as oportunidades existentes no empreendedorismo.
  • Deixar claro que as oportunidades só existem para os estudantes que estiverem mais a fim e que apresentem mais responsabilidade.
  • Mostrar que o mercado não é só composto de "Zoomp", mas que apresenta também oportunidades em outras lojas com grifes menos valorizadas, hipermercados, etc.
  • A mídia precisa ajudar a desmistificar o glamour que foi, erroneamente, criado para o mundo da Moda.
  • Mostrar aos estudantes que, como em qualquer área profissional, há a necessidade de se diferenciar, apresentar o seu diferencial pessoal e profissional.
  • Criar a obrigação para os estudantes de se preparar para a gestão de negócio.
  • Treinar e preparar os estudantes para enxergar as oportunidades existentes, mostrando que a Moda não é só vestuário e que ocorrem muitas oportunidades em áreas não convencionais.
  • Trazer o empresário da moda para mais perto das escolas da Moda, para ele passar sua experiência e conhecer melhor o que se ensina e o tipo de futuro profissional que está se preparando.

Instituto Via de Acesso, 18/08/2005.


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