Walter Barelli - economista e professor

Agrobusiness

Realizada em 1 de julho, na sede do Instituto Via de Acesso, a 5ª mesa-redonda sobre o tema "Educação, Trabalho e Empreendedorismo para o Jovem Estudante Brasileiro", discutindo-se as oportunidades e exigências para os estudantes no setor de agronegócios. A realização das mesas-redondas conta agora com o apoio institucional do Sebrae/SP.

Sob a coordenação geral do ex-ministro do Trabalho e Conselheiro do Instituto Via de Acesso, Walter Barelli, participaram do trabalho os consultores Fernando Lobo Pimentel e Simone Fredericci Lasagno, o jornalista Eugênio Araújo, o professor Marcos Machry e Ruy Leal, superintendente do Instituto Via de Acesso. A moderação foi feita pelo professor Eduardo Najjar, da ESPM.

Foi lançada pelo moderador a pergunta: "como você vê o agrobusiness como campo de oportunidades de trabalho para o estudante? E estudantes de quais habilitações"?

Simone Lasagno, profissional de RH há 19 anos, ex-diretora de RH da Bayer e atual consultora de carreiras, abriu os trabalhos dizendo que as oportunidades não são restritas ao engenheiro agrônomo. Hoje, como exemplo, o produtor usineiro possui estrutura de empresa, e as cooperativas estão muito mais profissionalizadas do que antes e buscando, cada vez mais, desenvolvimento profissional. Além disso, as indústrias que trabalham no agrobusiness desenvolveram verdadeiros complexos comerciais, onde cada um de seus produtos para esse setor pode representar algo como 8 ou 9 milhões de dólares de receita. Para essa realidade a formação atual dos estudantes é incompleta. Ele precisa ser preparado para aprender a atuar sob o ponto de vista do negócio. Existem, atualmente, grandes desafios no país na área de distribuição, onde falta mão-de-obra especializada. Há uma grande necessidade de gente preparada para a distribuição de refrigerados. Em finanças, produção, vendas, marketing e P&D, há um enorme campo de oportunidades profissionais para quem sabe, muito bem remuneradas. Por fim, reforçou que falta à escola preparar melhor o agrônomo para uma visão muito mais ampla do negócio "agrobusiness".

Marcos Machry, produtor rural por 15 anos no RS, professor há 5 anos em Administração e Planejamento Rural, atualmente professor nas faculdades Cantareira e Anhembi Morumbi, disse que 5 anos é pouco para aprender tudo nos cursos de ciências agrárias. Nas faculdades se foca muito a produção. Mas, essa forma de ensinar está muito ligada ao passado, quando era objetivo ensinar o produtor a plantar e a criar. Até a "porteira" as escolas estão bem. O problema é o pós-porteira. Para esse enorme novo mundo de atuação profissional, as escolas estão mal preparadas. Agora é que estão dedicando em seus currículos cerca de 30 horas, no curso inteiro, para matérias como administração, planejamento, etc. Citou o exemplo do veterinário. Disse que atualmente a área está boa. Há trabalho. Porém, acha que o veterinário está acomodado e não está vendo que quem gerencia as fazendas é o agrônomo. Será ele quem irá demitir. Finalizou dizendo que, apesar das enormes mudanças nas necessidades de mão-de-obra no setor, acha que mudar as grades dos conteúdos dos currículos é complicado para as escolas. As grades ainda são feitas para o profissional técnico. Não contemplam as habilitações e perfis citados pela Simone. Preferem não mudar as grades de graduação e, para atender essas necessidades, criam cursos de pós-graduação.

Fernando Pimentel, que anteriormente trabalhou em empresas como a Monsanto, Cutrale e Copas, com cursos sobre logística na Europa, e atualmente dirigindo a Agro Security, concultoria especializada em riscos logísticos e trade finance, entende que o curso de agronomia não é mais adequado para as mais variadas atividades que o agrônomo deve fazer hoje. Nos Estados Unidos, por exemplo, há muito existe a graduação específica em agronegócios, um mundo completamente diferente do que a escola contempla atualmente. O empresário do agronegócio quer a soja mais barata, quer saber sobre o clima, câmbio, mercados compradores, etc. Citou também as novas carreiras no setor e deu como exemplo o Marketing. Profissionais experientes e vitoriosos que saem da indústria ou de serviços, se não forem preparados para o setor, têm suas carreiras destruídas em 6 meses, pois não estão acostumados com as imprecisões agrícolas. Alguns ainda acham que marketing tem a ver com a distribuição de bonés para os produtores. O produtor quer o defensivo, mas quer também que a indústria trabalhe o valor do grão dele na bolsa de mercadorias e irá pagar à indústria na mesma proporção que receber pelo seu grão. O curso de agronegócios, que não existe no país, será uma adequação e uma evolução, para se preparar melhor o profissional para esse setor, concluiu.

Eugênio Araújo, jornalista há mais de 25 anos, tendo atuado muito tempo no jornal O Estado de S. Paulo, no Caderno de Empregos e no Caderno Agropecuário e até recentemente no Conselho de Biotecnologia, atualmente é diretor de projetos editoriais do Máster em Jornalismo para Editores, acredita que o jovem interessado deve procurar a informação, que hoje está disponível em diversas outras fontes além da escola, para conhecer melhor esse setor e suas oportunidades. Disse que os jovens estão começando a entender a extensão do novo mundo da biotecnologia, no caso, dos Trangênicos. Demandam muito o Conselho de Biotecnologia, identificando as oportunidades, os muitos desafios, as exigências e as dificuldades. Enquanto a reforma curricular não vem, acredita que os jovens devem procurar o desenvolvimento de seu conhecimento por meios de cursos de especialização que estejam sintonizados com esse novo mundo de agronegócios. Exemplificou a GV, que tem um pacote para isso. Acredita também que outro ponto sério na educação, para o setor, é a falta de preparação dos professores para os novos cursos necessários para o agronegócios. Falta também uma forte relação entre a educação e o setor. Pode parecer óbvio, mas essa relação é muito frágil e não contribui para a formação de profissionais mais adequados às reais necessidades do setor.

Empreendedorismo no setor

Há algumas profissões, como o veterinário, onde o empreendedorismo é uma marca. Por conta dos pet shops, por exemplo, muitos acabam por abrir as suas clínicas. Mas, o mercado está ficando saturado.

Para o engenheiro agrônomo, empreender quer dizer ele entrar na produção agrícola. O mais adequado é entrar em produções de scargot, apicultura ou rã, pois exigem pouco capital. A apicultura, apesar de algumas dificuldades conjunturais, tem um mercado externo muito promissor.Estimativas indicam que 50% dos agrônomos são empreendedores, pois vêm de famílias produtores rurais.

Recém-formado não vai produzir soja. É caro e arriscado para o agrônomo. O recém-formado precisa se concentrar em iniciativas de baixo investimento e em nichos de mercado.

Mercado pouco explorado é o de beneficiamento. Outro nicho que exige pouco investimento é o do desenvolvimento de software para a produção.

Conclusões

  • As universidades são basicamente campos de testes. A relação pode e deve ser muito mais explorada, pois já têm mão-de-obra especializada e estrutura de pesquisa.
  • As universidades corporativas de empresas de agronegócios podem participar mais ativamente do desenvolvimento rápido do profissional que interessa ao setor.
  • Se houver amanhã um profissional de agronegócios, o agrônomo, como é formado atualmente, terá sérios problemas.
  • Os professores, no geral, estão defasados e consideram os novos cursos de especialização uma ameaça real. São corporativistas e estão na zona de conforto. Não estão se atualizando.
  • A comunicação, escrita e verbal, é importantíssima para quem quer desenvolver carreira. Para realizar negócios é importante.
  • Para as empresas de agronegócios, quem não tiver conhecimento de idiomas não é contratado.

Soluções

  • Quem sai da escola tem que fazer especializações.
  • Mercado forte para cursos rápidos.
  • Integração das escolas com as empresas do setor, visando dar aos alunos uma visão mais real das oportunidades e exigências.
  • Os estudantes interessados devem procurar convívio com profissionais do setor, considerando suas características em relação à família, mobilidade e regiões onde deverá atuar.
  • O profissional na escola, para dar testemunhal aos alunos, apresentando o "mundo real" do setor.
  • Urgente considerar o impacto que a tecnologia tem e terá no setor.
  • Ensino a distância é um excelente recurso, principalmente para quem está longe dos grandes centros, que apresenta alternativas presenciais.
  • O jornalismo agrícola é um bom campo de trabalho. Muitos jornalistas são agrônomos também.
  • Introdução de um curso específico em agronegócios, voltado para pós-porteira.

Instituto Via de Acesso, 22/07/2005.


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