Walter Barelli - economista e professor

Profissões tradicionais

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Foi realizada em 30 de maio de 2005, na sede do Instituto Via de Acesso, a 4ª mesa-redonda sobre o tema central "Educação, Trabalho e Empreendedorismo para o Jovem estudante Brasileiro", discutindo-se as oportunidades e exigências para os estudantes junto às profissões tradicionais, Medicina, Advocacia e Engenharia.

Sob a coordenação geral do ex-ministro do Trabalho e Conselheiro do Instituto Via de Acesso, Walter Barelli, participaram desse trabalho o dr Arthur Zular, o prof. e advogado, Francisco Fierro, o engº Luiz Fernando Pimentel Freitas e o superintendente do Instituto Via de acesso, Ruy Fernando Ramos Leal. A moderação foi feita pelos professores Alfredo Passos e Eduardo Najjar, da ESPM.

Como cenário para as discussões foram considerados os fatores:

  • Influência da globalização para o campo de trabalho desses profissionais.
  • Novos campos de trabalho e o perfil de exigências.
  • O empreendedorismo como alternativa de trabalho x preparo desses profissionais.

Segundo Artur Zular, médico formado na Escola Paulista de Medicina, fundador e responsável pelo Instituto de Qualidade de Vida e adepto da medicina biopsicosocial, a medicina está passando por um momento crítico, pois há uma grave distorção no mercado que interfere seriamente na carreira médica que é a medicina de grupo, que castrou a bonita relação direta antes existente entre o médico e o seu paciente. Tudo ficou impessoal e rápido demais nessa relação. Além disso, há a realidade da medicina como profissão, no sentido de que para exercê-la são necessários 6 anos de imersão integral no curso, sendo que o 5º e o 6º anos há o internato, com plantões dia, sim, dia, não, com mais a residência, que ocorre em mais 3 a 7 anos. São cerca de 10 a 12 anos, entre formação e residência, para, após, o médico poder exercer a profissão. A carreira gera muita angústia, ansiedade referente ao saber, pois se trabalha com a vida humana, requerendo audácia, técnica e um severo trabalho psico-emocional pelo temor do erro médico.

O médico deixou de ser um profissional liberal, para ser empregado, ás vezes até do próprio hospital onde fez residência. É mal remunerado, pois estudou 12 anos para ganhar salários que exigem mais de um emprego em hospitais, muitos com plantões em seqüência. Segundo a OMS-Organização Mundial de Saúde, o tempo mínimo para uma consulta é de 15 minutos. Na medicina de grupo esse é o tempo máximo. Como conseqüência, o médico pede muitos exames para estabelecer um diagnóstico.

O conhecimento médico dobra a cada 2 anos. Daí é fundamental para um profissional médico se atualizar comprando livros, Internet, congressos, simpósios, etc. Não há como não ter 2 ou 3 empregos para sustentar isso. E desde a sua formação o médico tem que estudar muito. Estuda tanto, que não pensa em seu futuro, em sua carreira. No curso não é preparado para ser um empreendedor. Estudam-se, exclusivamente, matérias relativas à medicina. O médico não é preparado/capacitado para ser um gestor. Não sabe como criar uma rede de negócios, não sabe também como criar o seu networking. Poucos são afeitos a conhecer o marketing, finanças, RH, de maneira a se preparar melhor para atuar num mundo globalizado e competitivo, que muda a todo o momento.

Há muito médico em São Paulo e pouco no Brasil. O Conselho Federal de Medicina é contra essa situação, mas não tem poder para mudá-la. Dentro desse quadro, é imperioso exigir-se que a faculdade de medicina tenha o seu hospital. Além disso, há ainda muitas escolas que desenvolvem os seus cursos nos moldes antigos de ensino. De 4 a 8 horas com professor falando. É difícil fixar assim um aluno da era Internet.

O engenheiro Luiz Fernando Pimentel Freitas, formado em Engenharia Mecânica pela Escola de Engenharia Mauá, tendo trabalhado 25 anos na Camargo Correa e, hoje, consultor, afirma que a engenharia sempre foi ligada a empresas. Mas, com o mundo globalizado, a relação do engenheiro com as empresas mudou no seu conceito de relação profissional. A parte nobre da engenharia é globalizada, ou seja, já vem pronta de fora do país. A realidade atual do mercado de atuação do engenheiro é composta de vários idiomas, muita tecnologia (muita importação por parte das empresas), pouco desenvolvimento nacional.

Houve, com isso, o deslocamento do aproveitamento do engenheiro, ficando muito mais perto das pequenas e médias empresas ou para um cargo de nível técnico ou ainda para funções periféricas. Por exemplo, não mais a utilização do engenheiro projetista em sua função de formação, mas na área de vendas ou de assistência técnica.

Outra mudança importante ocorrida com o curso de engenharia é o distanciamento, em muitos casos e em muitas escolas superiores, daquilo que se ensina com o que se procura nas empresas. Daí a incidência dos cursos de tecnólogos plenos. A linha tradicional do ensino de engenharia vem mudando, pois não atende nem ao profissional nem ao mercado.

O engenheiro, recém-formado, sai dos bancos escolares e encontram muita dificuldade para trabalhar. Muitos, conhecedores dessa situação, tentam o empreendedorismo, a partir das empresas juniores, desenvolvendo projetos e prestando consultoria.

No mundo globalizado, o engenheiro envelhece cedo. Com 40 ou 45 anos é considerado velho, principalmente nas multinacionais e se atuar em área técnica. Há, entretanto, mais chances de atuar profissionalmente, se estiver no comando de áreas administrativas ou financeiras.

A automação industrial, as montadoras são um bom exemplo, tirou o lugar de muita gente, inclusive dos engenheiros, iniciando o fenômeno da migração desses profissionais da área industrial para serviços. Cerca de 50% dos engenheiros atuam em engenharia hoje em dia. Os outros 50%, atuam em instituições financeiras, corretoras de valores, entre outras instituições do gênero, aproveitados pelo pensamento lógico do engenheiro.

Outro dado importante que deve ser salientado é a multiplicação das especializações em engenharia, abrindo muito o leque de possibilidades de aproveitamento do engenheiro. Saiu-se de 6 especializações em engenharia, para mais de 20 especializações, aparecendo , entre outras, a engenharia de Alimentos, de Projetos, Mecatrônica, a Têxtil e a de Produção, concluiu Luiz Fernando.

O professor de Letras Clássicas pela PUC e advogado formado pela USP do Largo São Francisco, Francisco Fierro, educador com larga experiência no ensino e na direção de escolas, apresentou uma análise que tem início no Ensino Médio, onde não mais se consegue preparar alunos para o futuro, com uma visão mínima do que ocorre no mundo. Falta, segundo ele, qualidade no ensino e visão macro na educação. O foco da educação é a aprendizagem, que pode se dar com ou sem o professor. Na educação, o importante é criar mecanismos que incentivem, motivem o estudante a pensar. Se ele pensa, ele percebe melhor o mundo e como se movimentar nele. É necessário reciclar professores que não estão preparados para "esta educação". O estudante de hoje é impaciente e tem muitas outras fontes de informação além da escola. Quer "jogo rápido", como ocorre no mundo globalizado. Ele tem a Internet, fonte inesgotável e atualizadíssima de informações e de conhecimento e se impacienta quando um professor ainda se utiliza de giz e quadro negro.

De acordo com dados da OAB, existem cerca de 220 mil advogados no Brasil, muitos sem qualquer condição de atuar na profissão. O estágio tem se mostrado um bom mecanismo para dar ao estudante de advocacia um melhor preparo, uma condição mais real para atuar no futuro campo de trabalho.

Embora seja uma profissão bastante tradicional, a advocacia ganhou, nos últimos tempos, um elenco de novos campos de atuação, que , sem dúvida, abrem enormes possibilidades de aproveitamento profissional para aqueles que estiverem preparados. São os casos do setor ambiental, do direito do consumidor, do direito internacional, biotecnologia, tecnologia e a pirataria, patentes na farmacologia, entre outros setores recentes e cheios de oportunidades.

Conclusões

  • O médico não se globalizou pela falta de tempo. Não conhece o mundo e nem a sociedade em que vive. Deve encontrar tempo para reciclar-se para voltar a conhecer as pessoas e suas dificuldades.
  • Incentivar os médicos e realizar pequenos cursos de gestão empresarial, o que abrirá muito a alternativa empreendedora.
  • Humanização no ensino de medicina.
  • É preciso aprender a aprender e a desaprender. O mundo globalizado exige isso.
  • O aprendizado deve ser permanente e a universidade deve se reciclar em seus métodos de maneira a facilitar esse aprendizado.

Instituto Via de Acesso, 17/06/2005.


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