Walter Barelli - economista e professor

Setor da Construção Civil

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Com o apoio institucional do Sebrae/SP e sob a coordenação geral do ex-ministro do trabalho e conselheiro do Instituto Via de Acesso, Walter Barelli, foi realizada a 10ª mesa-redonda sobre o tema "Educação, Trabalho e Empreendedorismo para os estudantes no setor da Construção Civil", na manhã do dia 25 de novembro.

Para esse trabalho, contou-se com a participação de Alexandre Britz, do Desenvolvimento Tecnológico da Cyrela; Priscila Camilo, do Desenvolvimento Organizacional da Cyrela; Ricardo Pereira Leite, diretor da Cohab/SP; Fábio Vilas Boas, diretor da Tecnisa; Leni Andrade Leite, da Racional Engenharia; Alecsandro Araújo de Souza, do Sebrae/SP e Ruy Leal, do Instituto Via de Acesso. A moderação dos trabalhos coube ao prof. Alfredo Passos.

Alfredo Passos iniciou apresentando os objetivos da reunião, fazendo um rápido apanhado dos problemas de inserção dos estudantes no mercado de trabalho e lançou a pergunta: "como estão vendo a demanda de trabalho para os universitários no setor da Construção Civil?"

Fábio Vilas Boas, da Tecnisa, começou dizendo que a Construção Civil no mercado imobiliário está estagnado há algum tempo. Essa situação levou à condição dos profissionais altamente capacitados estarem se sujeitando a salários pequenos. As empresas se aproveitam em muitos casos e ficam todos nivelados por baixo.

Priscila Camilo, da Cyrela, disse que contrata muitos estudantes como estagiários e os desenvolve, visando prepará-los para as oportunidades que a empresa vier a apresentar no futuro. Hoje, a Cyrela tem contratados 79 estagiários. Destes, 21 estão se formando no final deste ano e 12 deles estão sendo efetivados.

Alexandre Britz, da Cyrela, reforçou que sempre é um problema administrar o término dos estágios com as contratações que a empresa pode fazer. Isto porque muitos fatores externos à empresa interferem.

Ricardo Pereira Leite, da Cohab, como engenheiro que é fez um comparativo, dizendo que quando entrou na faculdade para fazer o curso de engenharia civil, ser engenheiro era a melhor profissão possível. Quando saiu, a situação para o engenheiro estava mudada, e para pior. A crise de 1982/83 modificou muito o mercado de trabalho para todos, em especial para o recém-formado. Desenhando o ambiente externo hoje, considera que o país se encontra com uma alta carga tributária e juros muito altos. O empresário, nessas condições, investe menos, e o setor produtivo, em geral, tem problemas, contratando menos. Na Construção Civil a informalidade aumentou muito, o que pode representar oportunidades, especialmente, para quem é empreendedor.

Alecsandro Souza, do Sebrae, fez uma análise sobre o mercado informal de trabalho. Segundo alguns levantamentos existentes no Sebrae/SP, para cada trabalho formal, há dois informais. Deu como definição do que é informal o exemplo do engenheiro que se junta a financiadores e não paga impostos.

Leny Andrade Leite, da Racional Engenharia, citou os trabalhos realizados pela Racional no sentido de aproveitar os jovens, por meio do seu programa de estágio para estudantes, evoluindo para o programa trainee. Nos canteiros de obras realizam um forte programa de alfabetização voltado para atender a mão-de-obra menos especializada. Concluiu, dizendo que a oferta de jovens para a Construção Civil está muito alta e não está sendo absorvida.

Fábio Vilas Boas, analisou a questão da carreira para o engenheiro na Construção Civil considerando que a evolução natural para quem segue o caminho técnico da carreira é começar como engenheiro, engenheiro de obras, indo para coordenador de obras, gerente de obras e, quem sabe, chegando a diretor se a empresa tem uma estrutura maior. Entende que o engenheiro é avesso ao risco e, portanto, pouco empreendedor.

Alecsandro Souza, entende que os engenheiros estão buscando outros tipos de oportunidades, atuando em frentes diferentes do que a construção civil. Exemplificou o Sebrae, onde se encontram muitos engenheiros atuando. O mercado de trabalho evoluiu muito e a escola não acompanhou. A formação hoje, para o que as empresas precisam, está deficiente.

Priscila Camilo, entende que faltam engenheiros que saibam gerenciar pessoas. A escola só prepara, quando prepara, a formação técnica do futuro profissional. E o mercado de trabalho exige dos profissionais uma formação mais completa no que diz respeito às habilidades e competências comportamentais.

Alfredo Passos lançou outra questão: quais outros profissionais que podem ser aproveitados na Construção Civil, além do engenheiro civil?

Ricardo Leite, considera que o setor apresenta agora muitas oportunidades para o Arquiteto, que se apresenta como mais criativo do que o engenheiro. Segundo ele, o arquiteto no Setor Público é muito valorizado, não ocorrendo o mesmo no Setor Privado.

Fábio Vilas Boas entende que há uma falha na formação do arquiteto no Brasil. Aqui, ele é preparado para ser um "poeta-artista". No exterior, o arquiteto é preparado para ser o chefe do processo. Pelo seu ponto de vista, o arquiteto precisa ter no Brasil um maior relacionamento social, caso contrário ele não cresce. Também acredita que o engenheiro não valoriza o planejamento e, por conta disso, perde-se muito, muda-se muito, ajusta-se muito.

Leny Leite informa que a função do mestre de obras, pela complexidade maior e por muita oferta de mão-de-obra, é exercida pelo engenheiro civil, hoje.

Alexandre Britz levantou um problema no setor que é o aproveitamento do tecnólogo. Entende que o tecnólogo é muito pouco lembrado pelas empresas.

Quanto ao empreendedorismo houve uma avaliação conjunta entre Ricardo Pereira Leite e Alecsandro Souza. Ricardo considera que o empreendedor brasileiro é ingênuo, pois se avaliasse com propriedade as condições que o país oferece ao seu empreendedor, ele nunca iniciaria um negócio. Alecsandro apresentou os resultados de uma pesquisa realizada pelo Sebrae, informando que 55% dos empreendedores o são por necessidade e 45% o são por oportunidade.

Walter Barelli perguntou: na rede/cadeia de produção da Construção Civil tem trabalho para o universitário?

Fábio Vilas Boas informou que as grandes empresas do setor estão verticalizando novamente sua operação. A espinha dorsal do empreendimento, com exceção da sua fundação, é agora verticalizada. As oportunidades, portanto, ainda ficam, nesse caso, restritas à grande empresa.

Alecsandro Souza entende que apesar do setor estar muito competitivo, há oportunidades para aqueles que possuem uma atitude forte. Se pudesse dizer algo ao estudante de engenharia, diria que "faça!". Esteve em Timor leste, fazendo parte de equipe para auxiliar na reconstrução daquele país. Lá, não havia nada, nem engenheiro, médico ou qualquer outro profissional que pudesse ajudar na construção. Tiveram que "importar" o corpo técnico para isso. As oportunidades são globais e valorizam a capacidade de mobilidade das pessoas.

Fábio Vilas Boas considera que não há representação forte e, por isso, falta representatividade para a Construção Civil. O setor precisa se unir e fortalecer-se, representativamente.

Alfredo Passos solicitou, então, que todos se posicionassem quanto ao que julgam ser mais importante para o aproveitamento do estudante. O que os estudantes devem fazer?

Ricardo Leite desenvolveu o raciocínio de que o estudante deve investir em seus pontos fortes, em sua vocação e capacidades.

Leny Leite acredita que há empresas que estão investindo na formação de futuros quadros, a partir de estudantes. Citou o caso do projeto da Racional, "Futuros Profissionais". Entende que o mercado é limitado ao emprego. Uma alternativa interessante de aproveitamento profissional é a consultoria, mas é um mercado bom para outras regiões, exigindo do interessado uma boa capacidade de mobilidade.

Alecsandro Souza considera que o estudante deve ter uma postura diferente e mais "agressiva" se quiser ser melhor aproveitado pelo mercado de trabalho. Enquanto está no curso deve procurar algo para atuar na faculdade, como a empresa junior e o estágio, para se aprimorar durante a realização de seu curso, estabelecendo e construindo o seu networking. Olhar a cadeia de produção para identificar possíveis oportunidades para empreender ou para atuar em outros nichos, pouco conhecidos e disputados. O estudante deve também aprimorar outras habilidades. Ma maioria dos casos, o estudante se empenha somente na sua formação técnica. Só isso não basta. É necessário que aprimore também as competências comportamentais.

Fábio Vilas Boas entende que o estudante deve fazer algo de que goste. Estudar o mercado, realizando visitas em empresas. Preparar-se para não começar errado. Ter um enfoque multidisciplinar. Viajar para "por a cara na vida" e ter conhecimento do mundo. Ter capacidade para gerir pessoas.

Priscila Camilo explica que os estudantes saem da faculdade e não estão preparados para o mercado. Falta entendimento do que é a profissão e de como funciona o ambiente onde irão atuar. Poucos jovens sabem o que querem, não elaboram um plano de vida e de carreira. Citou o IBTA, como uma escola que para todos os seus cursos possuem um profissional que dá Orientação de carreira.

Alexandre Britz disse que é preciso ter paixão em tudo o que se quer fazer. Se quiser ser engenheiro, vá ser engenheiro, entendendo que as dificuldades não podem ser mais fortes do que a paixão em ser engenheiro.


Instituto Via de Acesso, 22/12/2005.


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